O retrato de um intelectual marcado pela inquietação
Dentre os vários trabalhos já escritos sobre o grande escritor nascido na Capital das Espinhas, poucos possuem a força humana e literária do discurso pronunciado por Eduardo Martins, por ocasião de sua posse na Academia Paraibana de Letras, na noite de 27 de novembro de 1971.
Ao escolher Allyrio Meira Wanderley como uma das figuras centrais de sua evocação, Eduardo Martins não se limita a apresentar uma biografia ou a relacionar títulos de livros. O que constrói é, sobretudo, um retrato intelectual e psicológico, no qual a trajetória do escritor paraibano aparece indissociavelmente ligada à sua personalidade, às suas inquietações, às suas contradições e à sua permanente luta com a palavra.
O referido discurso percorre diferentes dimensões da vida e da obra de Allyrio: o homem, o romancista, o teatrólogo, o jornalista e, finalmente, a figura humana que Eduardo Martins afirma ter conhecido pessoalmente. A própria estrutura do discurso revela a intenção de ultrapassar o registro meramente biográfico. Eduardo Martins deseja explicar por que aquele homem, morto em 1955, continuava presente na memória dos seus contemporâneos e por que sua obra merecia permanecer como patrimônio da literatura paraibana.
Um homem nascido no sertão
Eduardo Martins inicia seu relato pela origem de Allyrio. Registra que ele nasceu em 22 de outubro de 1906, na fazenda de seu pai, Campo Comprido, situada no município e comarca de Patos. Era filho de Francisco Olídio Monteiro Wanderley e Inácia Maria Meira Wanderley. O ambiente familiar descrito pelo orador é essencial para compreender a formação do futuro escritor.
O pai aparece como uma personalidade vigorosa: homem inteligente, embora pouco culto, empreendedor, enérgico e extremamente honesto. Eduardo Martins recorda inclusive uma realização que, para a época, tinha caráter extraordinário: Francisco Olídio teria introduzido um automóvel Ford nos sertões da Paraíba, enfrentando estradas precárias e grandes dificuldades. O episódio é significativo porque estabelece, desde o princípio, uma espécie de genealogia moral de Allyrio: a energia, a coragem e a disposição para enfrentar obstáculos seriam características herdadas ou absorvidas do ambiente familiar.
A infância e a adolescência de Allyrio também são apresentadas como etapas de intensa formação. Em 1912, com pouco mais de cinco anos, ingressou no Colégio Leão XIII, em sua terra natal, onde iniciou os estudos. Em fevereiro de 1919, transferiu-se para o Colégio Diocesano Pio X, na capital paraibana. O próprio Allyrio, rememorando aqueles anos, descreveu a viagem a cavalo para Campina Grande, que durava vários dias.
É particularmente reveladora a narrativa de um episódio escolar. Depois de ouvir de um professor que sua composição era péssima, Allyrio teria respondido que talvez não soubesse escrever mais corretamente do que o mestre, mas que escrevia “muito melhor”. A insolência juvenil, narrada por Eduardo Martins, não aparece como simples anedota. Ela funciona como antecipação de uma característica que acompanhará o personagem durante toda a vida: a consciência precoce de sua capacidade intelectual e a disposição de enfrentar aqueles que tentassem limitá-la.
No ambiente escolar, entretanto, também nasceram suas primeiras experiências literárias. Eduardo Martins informa que Allyrio começou a esboçar poemas e que procurava evitar, especialmente, a escrita em verso. Mais tarde, ainda estudante, tentou escrever um romance e uma lenda paraibana. Os manuscritos acabariam destruídos, mas a experiência demonstra que a vocação literária surgiu muito cedo.
O sertão como experiência e matéria literária
Quando deixou o Recife, em 1924, Allyrio partiu para São Paulo com a intenção de continuar os estudos e trabalhar. Encontrou, porém, as dificuldades próprias de quem chega a uma grande cidade sem recursos suficientes. Eduardo Martins reconstrói esse período com grande intensidade narrativa.
O jovem sertanejo experimentou a falta de trabalho, a fome, a frustração e o sentimento de anonimato. A experiência da adversidade, contudo, não aparece como simples episódio biográfico. Ela se converte em matéria de sua literatura e ajuda a explicar a visão crítica que posteriormente atravessaria seus romances e artigos.
É também nesse momento que o discurso apresenta uma das dimensões mais importantes de Allyrio: sua capacidade de transformar a experiência pessoal em reflexão sobre a existência. A dificuldade material não o conduziu à resignação. Ao contrário, produziu nele uma espécie de energia intelectual que o acompanharia durante toda a vida.
Eduardo Martins lembra ainda uma viagem de Allyrio pela Europa, realizada em circunstâncias pouco esclarecidas. Sem dinheiro suficiente, o escritor teria trabalhado como taifeiro no navio que o transportou e, durante aproximadamente quatro anos, conheceu países como França, Alemanha, Bélgica, Portugal, Espanha e Rússia. Escreveu para jornais dos lugares por onde passou e aprendeu diversos idiomas.
O romancista que transformou o sertão em consciência
É no momento em que aborda o escritor que Eduardo Martins alcança um dos pontos altos de sua interpretação. Para ele, Allyrio Wanderley não foi apenas mais um escritor regionalista. Sua obra trazia a marca do tempo histórico e das circunstâncias sociais em que foi produzida. O romancista não utilizava o sertão simplesmente como cenário pitoresco. Ao contrário, penetrava nas estruturas sociais e psicológicas daquele universo.
Eduardo Martins identifica, em sua obra, uma permanente defesa dos direitos humanos e uma preocupação de caráter universal. Os livros não deveriam ser compreendidos somente como narrativas sobre homens e mulheres de uma determinada região. Por meio deles, Allyrio examinava problemas mais amplos da existência humana.
O discurso destaca Sol Criminoso, apresentado como obra de estreia que se afirmaria pela força do estilo e pelo poder narrativo. Depois viria Os Brutos, romance ambientado na natureza dos sertões nordestinos e marcado pelos episódios relacionados ao cangaço. Eduardo Martins ressalta seu realismo e sua dimensão histórica.
Com Bolsos Vazios, o escritor teria inaugurado uma nova etapa do romance brasileiro. Nesse livro, segundo o orador, Allyrio abandona a simples documentação naturalista e concentra-se na existência do intelectual, em suas incertezas, incompatibilidades e conflitos culturais.
Essa interpretação é importante porque mostra Eduardo Martins tentando situar Allyrio dentro de uma perspectiva mais ampla da literatura brasileira. Ele não o reduz ao rótulo de escritor regional. Reconhece nele um autor que utiliza a realidade sertaneja como ponto de partida para discutir questões humanas e sociais universais.
“Ranger de Dentes” e o despertar do sertão
Particular atenção é dada a Ranger de Dentes. Para Eduardo Martins, essa obra inaugura uma série de romances autônomos, vinculados por um cenário e por uma orientação filosófica. É nesse ponto que aparece uma formulação particularmente importante para compreender a leitura de Eduardo Martins sobre Allyrio. O romance regional, em sua concepção, não deveria ser confundido com aquelas representações sentimentais da paisagem sertaneja ou com a simples descrição da miséria. A literatura de Allyrio possuía uma dimensão crítica.
O sertão aparece como espaço de injustiças, desigualdades e conflitos. Seus personagens não são figuras exóticas colocadas à distância pelo escritor. São seres humanos concretos, próximos, reconhecíveis. Por isso, Eduardo Martins considera perfeitamente compreensível que alguns personagens tenham sido inspirados em pessoas conhecidas do autor.
A expressão “despertar do sertão”, empregada no discurso, é especialmente significativa. O que está em jogo não é apenas o despertar individual de personagens, mas a formação de uma consciência coletiva diante das injustiças e desigualdades.
Essa leitura aproxima Allyrio de uma literatura de denúncia social, mas sem reduzir sua produção a uma simples tese política. Eduardo Martins enxerga também o escritor preocupado com a linguagem, com o ritmo, com a construção dos personagens e com a força narrativa.
Depois de reler seus livros, afirma ter reencontrado um escritor vigoroso e conhecedor do idioma. Para ele, Allyrio possuía amor pelas palavras, gosto pelo termo preciso e talento para o diálogo.
O escritor e a linguagem
Essa talvez seja uma das características mais interessantes do testemunho de Eduardo Martins: sua admiração por Allyrio não se limita ao conteúdo de seus livros. Ela alcança o trabalho artesanal da linguagem.
Allyrio é apresentado como um escritor que dominava o idioma e que sabia extrair da palavra efeitos de expressão. A linguagem, em sua obra, não aparece como mero instrumento transparente da narrativa. Ela participa da própria construção da realidade.
Eduardo Martins ressalta a rapidez dos diálogos, o talento narrativo e a capacidade de trabalhar plasticamente a língua. Essa observação ganha especial importância porque ajuda a explicar por que o escritor não deve ser lembrado apenas pela temática sertaneja. Seu mérito também reside na maneira como transforma essa realidade em literatura.
Em uma das passagens mais expressivas, Eduardo Martins apresenta um trecho de Allyrio no qual os retirantes aparecem sob as árvores, acompanhando a migração através da paisagem castigada. A cena é construída com imagens de grande força, mostrando a seca não como simples fenômeno natural, mas como experiência de sofrimento humano.
Ao comentar esse tipo de escrita, Eduardo Martins chama Allyrio de escritor admirável e conhecedor do “manejo plástico da língua”, além de destacar sua capacidade de expressar a angústia humana.
O teatrólogo e o espírito satírico
A produção teatral ocupa outra parte importante do discurso.
Eduardo Martins considera que Allyrio merece atenção também como dramaturgo. Para ele, o valor de sua produção teatral está na estrutura cênica e na dramaticidade dos diálogos. Não se trata, portanto, de uma atividade secundária dentro de sua produção intelectual.
O orador também discute as ideias de Allyrio acerca do cômico, do trágico e da sátira. Segundo essa concepção, o cômico nasce de determinada intenção e de determinada relação com o comportamento humano, enquanto o trágico resulta de uma ruptura mais profunda entre o indivíduo e aquilo que o transcende.
A sátira, por sua vez, aparece como modalidade combativa. É uma arma que seleciona indivíduos e os submete à crítica. Eduardo Martins percebe aí uma das características fundamentais do temperamento intelectual de Allyrio: ele não escrevia apenas para agradar; escrevia para provocar, questionar e atingir um efeito sobre o leitor.
O jornalista combativo
Se no romancista Eduardo Martins encontra o intérprete do sertão, no jornalista encontra o polemista.
A atividade jornalística de Allyrio é definida como uma vocação de homem de imprensa “nutrida de sólidas leituras e orientada para um rumo definido e superior”. O jornal, para ele, não era simplesmente veículo de informação. Era também instrumento de formação intelectual e irradiação de conhecimento.
Eduardo Martins considera que Allyrio poderia ter produzido uma obra literária ainda mais extensa se não tivesse vivido durante tanto tempo na atmosfera intensa do jornalismo. Essa observação revela uma espécie de paradoxo: o jornalismo, que consumia o tempo do escritor, era também uma das manifestações mais fortes de sua inteligência.
Na imprensa, Allyrio aparece como intelectual consciente, autêntico e corajoso, capaz de manejar a palavra na defesa de suas ideias. Eduardo Martins destaca seu temperamento de polemista e a reputação de jornalista temido e respeitado.
O discurso registra sua filiação, em 1935, à Associação Paulista de Imprensa e menciona ainda sua passagem por A Manhã, no Rio de Janeiro, para onde fora convidado em 1945 como crítico literário. A experiência, contudo, foi breve. Diante das limitações impostas pela orientação do jornal, Allyrio preferiu preservar sua independência intelectual e ingressou, em julho de 1946, nos Diários Associados, onde teria maior liberdade de ação.
Um intelectual maior que o ambiente
Uma das avaliações mais contundentes presentes no discurso é aquela atribuída a Celso Mariz, segundo a qual Allyrio era um “gênio enigmático e profundo”, marcado pela arte, pela filosofia e por conhecimentos que ultrapassavam os limites culturais da Paraíba.
Eduardo Martins incorpora essa apreciação ao seu próprio retrato. O escritor é apresentado como alguém cuja formação intelectual excedia o ambiente em que vivia. Essa circunstância talvez explique parte de sua personalidade inquieta e de sua dificuldade de adaptação.
Allyrio aparece como um intelectual de múltiplos interesses: literatura, filosofia, jornalismo, crítica, política, teatro e estudos sociais. Essa multiplicidade, longe de ser apresentada como dispersão, é interpretada como consequência natural de uma inteligência excepcionalmente curiosa.
O resultado é a imagem de um homem que parecia grande demais para os limites do meio intelectual em que estava inserido.
O retrato de um homem “enigmático”
É, entretanto, na parte intitulada “O Retrato” que Eduardo Martins abandona o tom predominantemente crítico-literário e se aproxima do Allyrio homem.
Ele conta que conheceu Allyrio casualmente em uma redação de jornal, em São Paulo. A primeira impressão foi marcada pelo estranhamento. O escritor tinha aparência física forte, cabelos desordenados e um aspecto que, segundo o orador, combinava características de um brasileiro do Norte com algo que lembrava o passado holandês da região.
Mas a aparência era apenas a porta de entrada para uma personalidade muito mais complexa.
Eduardo Martins confessa que Allyrio lhe pareceu inicialmente um personagem “estranhamente enigmático”. A conversa entre os dois revela, porém, uma personalidade independente, altiva, sensível e pouco disposta a aceitar opiniões alheias sem contestação.
Essa descrição é fundamental. O Allyrio de Eduardo Martins não é apresentado como um homem fácil. Ao contrário: é difícil, nervoso, arredio, agressivo em determinados momentos e profundamente individualista.
Mas existe uma segunda dimensão.
Por trás da dureza, Eduardo Martins descobre um coração infantil. A metáfora utilizada é extraordinariamente expressiva: seria como quebrar a crosta dura de uma pedra e descobrir, dentro dela, o brilho inesperado de um diamante.
Assim, o temperamento áspero não constitui toda a personalidade de Allyrio. É, antes, uma espécie de defesa. Por baixo da agressividade, existiria um homem sensível, vulnerável e profundamente humano.
A consciência de sua própria grandeza
Outro aspecto ressaltado por Eduardo Martins é a relação de Allyrio com o próprio talento.
Ele não o considera vaidoso. Ao contrário, afirma que o escritor tinha consciência de seu valor intelectual. Essa diferença é importante: Allyrio sabia que era inteligente e sabia que possuía uma formação excepcional, mas não precisava transformar essa consciência em ostentação permanente.
É nesse sentido que Eduardo Martins cita a apreciação de Silvino Lopes, segundo a qual Allyrio teria um nome “muito doce” para assinar seus artigos, mas preferia utilizar o pseudônimo Monte Brito. O comentário transforma-se em uma metáfora sobre sua personalidade: não seria uma simples “montanha”, mas uma verdadeira montanha intelectual, capaz de desabar sobre aqueles que tentassem diminuir seu peso.
O retrato de Allyrio é, portanto, construído a partir de paradoxos: forte e sensível; agressivo e infantil; altivo e vulnerável; sertanejo e cosmopolita; jornalista e romancista; intelectual universal e escritor profundamente ligado à realidade nordestina.
A doença, a esperança e a morte
A última parte do testemunho adquire tonalidade mais dolorosa. Eduardo Martins lembra que o homem forte e combativo, para quem as lutas da vida nunca pareceram capazes de provocar medo, teve a saúde seriamente abalada. Allyrio morreu em 15 de janeiro de 1955, vítima de uma embolia cerebral, aos 48 anos. O sepultamento ocorreu em Patos, sua terra natal.
Pouco antes da morte, entretanto, Allyrio havia registrado em sua agenda uma espécie de declaração de renovação pessoal. Em novembro de 1954, manifestava o desejo de mudar a própria vida, recuperar a saúde, tornar-se mais forte, melhorar moralmente e continuar sendo útil.
A passagem é particularmente comovente porque ganha, retrospectivamente, um significado trágico. O homem que escrevia sobre sua recuperação e projetava o futuro estava, sem saber, próximo do fim.
Eduardo Martins não transforma essa circunstância em simples recurso sentimental. Ele a utiliza para mostrar a extraordinária capacidade de resistência de Allyrio. Mesmo diante da doença, permanecia nele a vontade de reconstruir-se.
A morte de Allyrio conduz o discurso para uma dimensão quase filosófica.
Eduardo Martins descreve sua partida como silenciosa. Não houve, segundo sua formulação literária, sangue nem gritos, mas apenas um silêncio maior sobre o silêncio de sempre.
Depois da morte, o nome do escritor sofre uma espécie de transformação. Aquilo que em vida havia sido peso, controvérsia, reputação e conflito passa a integrar a memória.
É nessa passagem que Eduardo Martins produz talvez sua mais profunda reflexão sobre Allyrio: a liberdade consiste em poder ser aquilo que se é. O escritor, entretanto, teria encontrado um mundo em que sua própria natureza não cabia facilmente.
A imagem final é a de um homem que partiu antes do tempo, mas cujo nome permaneceu flutuando na memória dos homens.
Eduardo Martins e a permanência de Allyrio Wanderley
O testemunho de Eduardo Martins possui importância especial porque reúne três perspectivas que nem sempre aparecem juntas nos estudos sobre Allyrio Wanderley. A primeira é a do crítico literário, que examina seus romances, sua dramaturgia, sua linguagem e seus temas. A segunda é a do jornalista, que reconhece em Allyrio um dos grandes polemistas de seu tempo. A terceira, talvez a mais valiosa, é a do homem que o conheceu, que conseguiu perceber, por trás da figura pública e do intelectual combativo, uma personalidade marcada por sensibilidades, fragilidades e contradições.
É justamente essa terceira dimensão que humaniza o retrato. Eduardo Martins não procura construir um santo. Não elimina as arestas de Allyrio, nem esconde sua agressividade, seu individualismo ou seu temperamento difícil. Pelo contrário, faz dessas características componentes essenciais de sua personalidade. E é aí que reside a força de seu testemunho.
Allyrio surge como um homem que não se acomodava. Não se conformava com opiniões prontas, não aceitava facilmente as limitações impostas pelo ambiente e não parecia disposto a reduzir sua inteligência para tornar-se mais facilmente compreendido. Sua obra literária nasce desse mesmo espírito.
O sertão de Allyrio não é apenas o sertão da paisagem, da seca e dos retirantes. É o sertão das desigualdades, das injustiças, da violência, das esperanças frustradas e, sobretudo, da possibilidade de uma consciência nova. Seus personagens não são apenas tipos regionais: são homens submetidos a conflitos universais.
Por isso, a expressão “despertar do sertão”, presente na leitura que Eduardo Martins faz de sua obra, adquire uma dimensão maior. Allyrio não descreve simplesmente o sertanejo; procura compreender aquilo que o oprime e aquilo que pode levá-lo à consciência de sua condição. Daí também sua literatura ser, ao mesmo tempo, regional e universal.
Um retrato para a posteridade
O Allyrio de Eduardo Martins é, enfim, uma figura de contrastes. É o menino sertanejo que chega à escola e desafia o professor. É o jovem que enfrenta a pobreza em São Paulo. É o viajante que atravessa a Europa e amplia sua formação cultural. É o romancista que transforma o sertão em matéria de reflexão social. É o dramaturgo que compreende o poder corrosivo da sátira.
É o jornalista que não abre mão da independência intelectual. É o polemista que maneja a palavra como arma. É o homem de aparência áspera que, por trás da dureza, guarda um coração sensível. É o intelectual que conhece seu próprio valor, mas que não precisa viver de sua própria vaidade. E é, finalmente, o homem que morre acreditando ainda poder recuperar a saúde, reorganizar a existência e tornar-se “mais forte”, “mais feliz”, “útil e melhor”.
Esse último Allyrio talvez seja o mais comovente de todos: aquele que, mesmo próximo da morte, ainda pensava em recomeçar.
Eduardo Martins, ao terminar seu discurso de posse, não oferece simplesmente uma homenagem a um escritor desaparecido. Oferece à Academia um modelo de vida intelectual. Ao fazê-lo, resgata Allyrio do esquecimento e o coloca novamente entre os vivos.
Passadas décadas, seu testemunho continua possuindo extraordinária força documental e literária. Porque Eduardo Martins não apenas viu Allyrio Wanderley; procurou compreendê-lo. E talvez seja justamente essa a razão pela qual seu retrato permanece tão vigoroso: Allyrio aparece não como uma figura acabada do passado, mas como um personagem ainda inquieto, contraditório, provocador e vivo na memória de quem o conheceu.
Eduardo Martins viu em Allyrio Wanderley muito mais que um escritor. Viu um homem em permanente combate consigo mesmo, com seu tempo, com sua realidade e com as limitações do mundo à sua volta. E foi justamente desse combate que nasceu a literatura que, segundo seu testemunho, justificava que aquele “homem que deixou o lugar” continuasse, simbolicamente, ocupando um lugar entre os homens.
José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário
