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Allyrio Wanderley visto por João Carlos Franca – Da série “Allyrio Wanderley visto por…” (de José Ozildo)

A morte de Allyrio Meira Wanderley, ocorrida em João Pessoa, no dia 15 de janeiro de 1955, provocou manifestações de pesar em diferentes setores da sociedade paraibana. Escritores, jornalistas, intelectuais, amigos e admiradores se encarregaram de registrar, nos dias que se seguiram, a dimensão da perda. Alguns procuraram avaliar a obra literária; outros ressaltaram a atuação jornalística. Houve ainda aqueles que reconstruíram aspectos de sua personalidade ou rememoraram episódios de sua trajetória. O texto de João Carlos Franca, publicado no jornal ‘O Norte’ em 18 de janeiro de 1955, apenas três dias depois da morte de Allyrio, pertence a uma categoria particularmente significativa: a do testemunho de amizade.

Intitulado ‘O meu amigo Allyrio’, o artigo não pretende ser uma apreciação crítica da obra do romancista, tampouco uma biografia ou um estudo de sua produção intelectual. É, antes de tudo, uma despedida. Franca interrompe, excepcionalmente, sua rotina de cronista esportivo para falar de um homem que conheceu de perto, com quem dividiu o espaço da redação e de quem recebeu ensinamentos. Sua homenagem nasce, portanto, da convivência cotidiana, da admiração e da saudade. É o depoimento de alguém que viu Allyrio não apenas como o escritor consagrado ou o jornalista de projeção nacional, mas como companheiro de trabalho, mestre, amigo e referência intelectual.

Essa circunstância confere ao artigo um valor documental especial. Enquanto outros testemunhos podem apresentar Allyrio a partir da perspectiva da crítica literária, da historiografia ou da admiração intelectual, João Carlos Franca oferece um olhar de dentro da redação. Seu Allyrio é aquele que chegava ao jornal, lia os textos dos companheiros, fazia observações, elogiava, criticava, conversava com os funcionários da oficina e se movimentava naquele ambiente como uma presença respeitada. O escritor e jornalista aparece, assim, integrado à vida cotidiana de O Norte.

É justamente essa dimensão humana que torna o depoimento de João Carlos Franca tão importante para a compreensão da personalidade de Allyrio Wanderley.

Um cronista esportivo interrompe sua rotina para falar de um amigo

João Carlos Franca possuía trajetória própria na imprensa paraibana. Jornalista de grande atuação, esteve ligado ao jornal O Norte, onde foi responsável pela página de esportes. Em 1954, tornou-se sócio fundador da Associação dos Cronistas Esportivos da Paraíba – ACEPB, entidade da qual seria, anos mais tarde, presidente. Também colaborou em ‘A União’ e desenvolveu atividades no rádio, tendo sido produtor e diretor artístico da Rádio Tabajara. Poeta de reconhecido valor, teve sua produção poética reunida no livro Insónias.

Essa trajetória é importante para que se compreenda a natureza do testemunho que ele oferece sobre Allyrio. Não se tratava de um observador ocasional da vida literária paraibana. Franca era também um homem de imprensa, alguém que conhecia os mecanismos da redação, as exigências do jornalismo e a importância do domínio da linguagem. Por isso, quando afirma que seguia os passos de Allyrio como “mestre da língua e da profissão”, sua declaração adquire especial significado.

O artigo começa com uma justificativa. Franca estava acostumado a escrever sobre esportes, mas as circunstâncias excepcionais da morte do amigo o obrigavam a abandonar momentaneamente sua rotina. A morte de Allyrio era um acontecimento que, para ele, não poderia passar sem registro. A frase inicial possui forte carga emocional:

“Mais uma vez, forçado pelas circunstâncias, abandono a rotina dos meus comentários esportivos, para remover fatos que deverão de agora em diante permanecer apenas nos corações”.

O cronista esportivo cede lugar ao amigo. A página dedicada habitualmente ao esporte transforma-se em espaço de memória. E Franca parece sentir a necessidade de explicar aos leitores por que um assunto tão distante de sua especialidade jornalística ocupava aquele espaço. Sua resposta é simples: Allyrio era seu amigo. Por isso, escreve:

“Há dois dias que partiu deste para o outro mundo o meu amigo Allyrio Wanderley, sumidade intelectual da nossa terra e jornalista de vulto nacional”.

Nessa frase inaugural está concentrada toda a estrutura do artigo. Há, simultaneamente, três Allyrios: o amigo, a “sumidade intelectual” e o jornalista de “vulto nacional”. Mas é o primeiro deles – o amigo – que determina os demais.

O Allyrio da redação de O Norte

Se há uma característica que singulariza o texto de João Carlos Franca, é a maneira como ele aproxima o leitor do cotidiano de Allyrio.

Não é o Allyrio distante, o romancista conhecido pelos livros ou o intelectual analisado pelos críticos. É o homem que aparece pela manhã na redação, pega os textos do companheiro e os lê com atenção. É o colega que acompanha o trabalho dos demais jornalistas e manifesta sua opinião. É o profissional que sabe reconhecer um acerto e apontar uma falha. Franca recorda:

“Era característico eu vê-lo nas manhãs em que aparecia pelo jornal, devorando interessado os meus escritos, antes mesmo de decifrados para as oficinas”.

A cena é extremamente reveladora. Allyrio não era um leitor indiferente. “Devora” os escritos de Franca. A escolha dessa palavra transmite intensidade. Seu interesse pelo jornalismo não era superficial. Ele acompanhava aquilo que os outros escreviam, interessava-se pela produção dos colegas e exercia sobre ela um olhar crítico.

Essa observação também revela uma característica fundamental de seu temperamento intelectual: a atenção permanente à palavra escrita. Para João Carlos Franca, Allyrio tinha sempre algo a dizer:

“Tinha sempre uma observação, ora um elogio, ora uma crítica”.

Não se tratava, portanto, de uma presença meramente física na redação. Allyrio participava intelectualmente do ambiente. Lia, observava, comentava, avaliava. Sua experiência de jornalista e sua cultura literária faziam dele uma espécie de referência natural entre os colegas. Por isso, Franca conclui:

“Eu sempre lhe seguia os passos de mestre da língua e da profissão”.

Essa talvez seja uma das afirmações mais importantes de todo o artigo. João Carlos Franca não se apresenta apenas como amigo de Allyrio. Declara-se, implicitamente, seu admirador e discípulo. O verbo “seguir” os passos de alguém pressupõe reconhecimento de autoridade. Franca via em Allyrio uma competência superior, especialmente no domínio da língua e no exercício do jornalismo.

Um mestre para os companheiros

A palavra “mestre”, empregada por João Carlos Franca, merece atenção especial. Allyrio não era mestre por ocupar formalmente uma posição acadêmica ou por exercer uma função de professor. Era mestre porque sua prática intelectual ensinava. Seu comportamento jornalístico, seu domínio da linguagem, sua capacidade crítica e sua experiência profissional constituíam uma espécie de escola para os que conviviam com ele.

O reconhecimento de Franca é ainda mais significativo porque ele próprio era jornalista experiente e escritor. Não era, portanto, um elogio de alguém sem conhecimento de causa. Era o reconhecimento de um profissional por outro profissional. Quando Franca afirma que acompanhava os “passos de mestre da língua e da profissão”, está identificando em Allyrio duas dimensões inseparáveis.

A primeira é o domínio da língua. Allyrio era, para ele, um modelo de escrita, alguém cuja autoridade estava relacionada à capacidade de utilizar o idioma com precisão. A segunda é o domínio da profissão. Allyrio conhecia o jornalismo por dentro, sabia trabalhar na redação, compreendia a função do jornalista e possuía uma visão própria acerca da responsabilidade de quem escrevia para o público. Esse duplo magistério – linguístico e profissional – ajuda a compreender por que sua presença era tão marcante em O Norte.

A lembrança como forma de aprendizado

A morte modifica a relação entre mestre e discípulo. Enquanto Allyrio estava vivo, Franca podia acompanhá-lo, ouvi-lo, receber suas críticas e aprender com suas observações. Depois da morte, resta a memória.

O próprio João Carlos Franca reconhece essa transformação e afirma:

“Agora, não mais o verei ao meu lado como uma sombra ou como um professor dedicado”.

A imagem do professor dedicado é particularmente expressiva. Allyrio ensinava sem necessariamente assumir o papel formal de professor. Seu ensinamento vinha da convivência. A partir daquele momento, porém, seus ensinamentos passariam a viver na memória do discípulo:

“Mas o seu exemplo ficará gravado no meu pensamento como uma recordação intensa, uma saudade imortal ou uma lembrança inapagável”.

A morte, nesse sentido, não interrompe completamente a relação entre os dois. O convívio físico termina, mas o exemplo permanece. Essa passagem é fundamental para compreender o caráter memorialístico do artigo. Franca não pretende simplesmente informar aos leitores que Allyrio morreu. Ele procura afirmar que a morte não elimina aquilo que um homem deixou naqueles que conviveram com ele. O amigo morto continua presente através dos ensinamentos, das lembranças e dos exemplos.

A polêmica e a lição de jornalismo

Um dos episódios mais interessantes narrados por João Carlos Franca refere-se a uma polêmica em que ele próprio esteve envolvido. Franca recorda que, durante determinada controvérsia, Allyrio lhe disse:

“O jornalista trabalha de acordo com a orientação do jornal a que pertence”.

A frase é curta, mas o cronista a preserva porque ela sintetizava uma compreensão profissional do jornalismo. A redação jornalística, na visão atribuída a Allyrio, não poderia ser confundida com a manifestação inteiramente particular do indivíduo. O jornalista escrevia dentro de uma determinada orientação editorial. Isso não significava, necessariamente, ausência de opinião, mas reconhecimento de que o profissional fazia parte de uma instituição jornalística.

O fato de João Carlos Franca conservar essa frase na memória revela que ela lhe serviu como ensinamento. Não é por acaso que, logo depois, afirma:

– “Era um fato. Ele sempre tinha razão”.

Mais do que uma declaração objetiva sobre a razão de Allyrio, a frase revela o grau de confiança que Franca depositava no amigo. Para ele, Allyrio possuía uma espécie de autoridade natural. Quando falava, era ouvido. Quando opinava, sua opinião tinha peso.

Desassombrado, valente, astuto e prudente

O retrato de João Carlos Franca não transforma Allyrio em uma personalidade simples. Ao contrário, apresenta um conjunto de características aparentemente contraditórias:

“Desassombrado e valente, era, no entanto, astuto e prudente”.

A frase é importante porque mostra que a coragem de Allyrio não era confundida com imprudência. Ele podia ser desassombrado e valente, mas também sabia agir com cautela.

Essa combinação ajuda a explicar sua trajetória jornalística. O jornalista que enfrentava polêmicas e sustentava posições não era alguém que desconhecesse as consequências de seus atos. Tinha experiência, informação e capacidade de avaliação. Franca acrescenta:

“Não se sabia quem o informava tão bem, mas o fato é que nada lhe passava despercebido e ninguém o enganava”.

Aqui surge outro elemento fundamental do retrato: a informação. Allyrio era um jornalista atento. Conhecia os acontecimentos, percebia o que ocorria à sua volta e dificilmente era surpreendido. A imagem é a de um profissional permanentemente vigilante.

Esse aspecto é especialmente significativo porque o jornalismo daquele período dependia intensamente das relações pessoais, das redes de informação e da capacidade do jornalista de acompanhar os acontecimentos para além daquilo que estava oficialmente disponível. Franca reconhece essa qualidade em Allyrio: ele sabia.

O homem que todos admiravam

A passagem seguinte humaniza ainda mais o retrato:

“Tímido e respeitado. Naturalmente simpático, com o seu sorriso simples e por vezes irônico, ninguém o julgava o gênio que realmente era”.

Aqui aparece um Allyrio diferente daquele que eventualmente poderia ser imaginado a partir de sua reputação intelectual. O homem de grande cultura não se apresentava necessariamente como alguém ostensivo. Era tímido. Seu sorriso era simples e, às vezes, irônico. A genialidade não se revelava imediatamente.

Essa característica é muito próxima de outros retratos produzidos por pessoas que conviveram com Allyrio. A inteligência excepcional coexistia com uma personalidade reservada e, em determinados momentos, aparentemente desconcertante. Franca afirma ainda:

“Gostava de criticar e de julgar os outros. Era justo”.

O detalhe é importante. Allyrio gostava de criticar – uma característica perfeitamente compatível com o jornalista e polemista que havia sido. Mas Franca imediatamente acrescenta: “Era justo”.

A crítica de Allyrio, portanto, não era apresentada como fruto de maldade ou perseguição pessoal. O amigo reconhecia em Allyrio uma preocupação com a justiça de seus julgamentos. E então vem uma das afirmações mais contundentes:

“Não havia quem no jornal não o admirasse”.

Essa frase amplia o testemunho individual. Não era apenas João Carlos Franca quem admirava Allyrio. Segundo ele, a admiração alcançava o conjunto da redação.

Outro aspecto particularmente interessante do texto é a maneira como João Carlos Franca apresenta Allyrio em suas relações com os diferentes setores do jornal. Ele afirma:

“Conversava com o pessoal da oficina, com a mesma maneira de falar com que enfrentava Chateaubriand”.

A frase é extraordinária porque estabelece um contraste social e profissional. De um lado, o pessoal da oficina – trabalhadores diretamente envolvidos na materialização do jornal. De outro, a referência a Assis Chateaubriand, figura de enorme projeção no mundo da imprensa brasileira e dono de um império – os Diários Associados – do qual, o jornal ‘O Norte’ era parte integrante.

Allyrio, segundo Franca, mantinha a mesma maneira de falar com ambos. Isso significa que sua inteligência não era acompanhada por uma postura de superioridade social. O homem que podia discutir com grandes nomes da imprensa também conversava com os trabalhadores da oficina.

A característica reforça a dimensão humana do retrato. Allyrio podia ser intelectual, crítico e combativo, mas não vivia isolado numa espécie de torre de marfim. Sua autoridade intelectual não dependia da distância em relação aos demais.

A consciência do próprio valor

João Carlos Franca faz, ainda, uma distinção interessante entre vaidade e consciência de valor. Ele escreve:

“Não era vaidoso, mas tendo consciência do seu ‘eu’ prodigioso, não se humilhava diante de ninguém”.

Essa talvez seja uma das melhores sínteses da personalidade de Allyrio presentes no texto. Ele sabia que possuía valor. Sabia que era intelectualmente superior em determinados aspectos. Mas, essa consciência não era apresentada como vaidade.

O que Franca admira é justamente a capacidade de Allyrio de preservar a dignidade pessoal. Não se humilhar diante de ninguém significa, nesse contexto, não aceitar submissões intelectuais ou pessoais. É uma postura coerente com o jornalista independente, com o polemista e com o homem que, durante a vida, demonstrou resistência às convenções.

Esse traço aproxima o testemunho de Franca de outros depoimentos sobre Allyrio: a inteligência aparecia associada a uma personalidade forte, independente e pouco inclinada à submissão.

A juventude ainda presente

Embora Allyrio tivesse 48 anos quando morreu, João Carlos Franca chama atenção para uma dimensão de sua personalidade que ultrapassava a idade cronológica:

“Não era ainda um velho, embora os olhos tristes carregassem uma saudade de uma mocidade bem vivida”.

A frase introduz uma tonalidade melancólica. Allyrio aparece como um homem que ainda não deveria estar no fim da vida. A morte, portanto, é percebida como prematura. Havia nele uma juventude interior que não correspondia à idade.

Os ‘olhos tristes’ acrescentam outro elemento ao retrato. O homem inteligente, crítico, valente e respeitado também carregava marcas de sua experiência.

A saudade de uma mocidade “bem vivida” pode ser lida como sinal de que Franca percebia em Allyrio uma memória profunda de seu próprio percurso. O intelectual que enfrentara tantas experiências trazia consigo lembranças, perdas e sonhos.

A natureza “madrasta” e a morte do gênio

É no penúltimo parágrafo que o texto alcança sua maior intensidade emocional:

“Mas a natureza é às vezes madrasta com os homens. Com tantos homens maus na terra, colheu um gênio que ainda estava formando gerações para as batalhas intelectuais do futuro”.

A morte de Allyrio é interpretada como uma injustiça. Franca não diz simplesmente que morreu um jornalista ou um escritor. Diz que a natureza “colheu um gênio”. Essa escolha vocabular é fundamental. Para o amigo, Allyrio ainda tinha muito a oferecer. Não havia concluído sua missão intelectual. Continuava “formando gerações para as batalhas intelectuais do futuro”.

Essa expressão revela a dimensão que Franca atribuía à atividade de Allyrio como mestre. Ele não era apenas um profissional de imprensa. Sua influência alcançava aqueles que aprendiam com ele. Por meio de sua palavra, seus exemplos e seus ensinamentos, contribuía para a formação de outros intelectuais e jornalistas. É nesse ponto que o depoimento de João Carlos Franca se aproxima de uma verdadeira homenagem à função pedagógica de Allyrio.

O mestre que formava gerações

A expressão “formando gerações” merece ser destacada porque amplia significativamente a compreensão da presença de Allyrio no jornalismo paraibano. O homem que Franca conheceu na redação não era simplesmente um colega mais velho ou mais experiente. Era alguém cuja influência se projetava sobre os demais.

João Carlos Franca, ao declarar que seguia seus passos como “mestre da língua e da profissão”, apresenta-se como exemplo dessa influência.

Assim, o artigo oferece uma pequena história da transmissão de conhecimento dentro da imprensa paraibana. Allyrio ensinava pelo convívio, pela crítica, pela leitura dos textos, pelas observações e pela postura profissional.

A morte interrompeu fisicamente essa atividade, mas não destruiu sua dimensão pedagógica. O mestre continuaria presente naqueles que haviam aprendido com ele.

A saudade de um amigo

O último parágrafo é curto:

“Agora, do meu amigo Allyrio apenas uma saudade. Uma tristíssima saudade”.

A simplicidade da conclusão é deliberada. Depois de descrever o jornalista, o mestre, o crítico, o homem respeitado, o intelectual e o gênio, João Carlos Franca retorna à palavra que abriu o texto: amigo.

É como se todas as outras dimensões de Allyrio fossem, naquele momento, secundárias. O que permanece para Franca é a ausência.

A repetição da palavra “saudade” reforça o caráter íntimo do artigo. Não se trata de uma conclusão crítica, mas de uma despedida. O uso de “tristíssima” intensifica ainda mais o sentimento. O jornalista experiente, acostumado a escrever para o público, termina sua homenagem com uma manifestação pessoal e direta. É o amigo que fala.

Um testemunho diferente dos demais

Dentro do conjunto de depoimentos sobre Allyrio Wanderley, o artigo de João Carlos Franca possui uma característica que o diferencia. Ele não comenta os romances, não analisa ‘Sol Criminoso’, ‘Os Brutos’, ‘Bolsos Vazios’ ou ‘Ranger de Dentes’. Não discute a estrutura literária dos livros, o regionalismo, a filosofia ou a técnica narrativa.

Seu objetivo é outro. Franca quer mostrar quem era Allyrio no cotidiano. E justamente por isso seu texto possui enorme valor para a reconstrução da personalidade do escritor.

À semelhança dos testemunhos de Armando Frazão e Geraldo Sobral de Lima, João Carlos Franca fala de um Allyrio que conheceu pessoalmente. Ele não é o crítico que observa a obra à distância: é o amigo que recorda a convivência.

Há, entretanto, uma diferença importante. Franca estava inserido no mesmo universo profissional do homenageado. Era também jornalista e conhecia as exigências da profissão. Seu testemunho, portanto, é simultaneamente afetivo e profissional.

Quando Franca chama Allyrio de “mestre da língua e da profissão”, está reconhecendo uma superioridade técnica que ele próprio, jornalista e escritor, teve oportunidade de experimentar.

Allyrio como modelo de jornalista

O artigo permite identificar alguns atributos que, segundo João Carlos Franca, definiam o jornalista Allyrio Wanderley. Era atento aos textos dos colegas. Lia antes mesmo que fossem encaminhados às oficinas. Tinha sempre uma observação a fazer. Sabia elogiar e criticar. Conhecia os acontecimentos e dificilmente era enganado. Era corajoso, mas também prudente. Possuía autoridade intelectual. Conversava com todos. Não se submetia diante de ninguém. E, acima de tudo, conhecia profundamente a língua e a profissão.

Essa descrição ajuda a compreender a dimensão da frase “jornalista de vulto nacional”, utilizada logo no início.

Franca não está apenas reproduzindo uma reputação pública. Ele oferece, a partir de sua experiência pessoal, as razões dessa reputação.

Allyrio era grande jornalista porque dominava a linguagem, conhecia o funcionamento da imprensa, acompanhava os acontecimentos, possuía fontes e informações, tinha capacidade crítica e não se intimidava diante de figuras poderosas. Mas, era também grande jornalista porque ensinava os outros.

O silêncio da crítica literária também diz alguma coisa

É significativo que João Carlos Franca não tenha comentado diretamente a obra literária de Allyrio. Esse silêncio não deve ser interpretado como falta de reconhecimento. Pelo contrário. O título do artigo – ‘O meu amigo Allyrio’ – já anuncia que a proposta é outra.

Franca não queria escrever um ensaio sobre o romancista. Queria registrar a perda do amigo. Essa opção torna seu depoimento complementar aos demais estudos sobre Allyrio. Se outros escritores e críticos se encarregaram de avaliar sua literatura, Franca preservou outra dimensão: a do homem.

Sua contribuição está justamente em mostrar como Allyrio era percebido por aqueles que conviviam diariamente com ele.

A obra pode ser estudada em livros, bibliotecas e arquivos. A personalidade, entretanto, depende muitas vezes da memória daqueles que estiveram próximos. E é essa memória que João Carlos Franca nos entrega.

Um Allyrio visto de dentro da redação

Talvez a imagem mais forte de todo o artigo seja a de Allyrio chegando pela manhã à redação de O Norte e lendo os textos de João Carlos Franca. É uma cena aparentemente banal. Mas é nela que o escritor se revela.

Não está numa tribuna, nem diante de uma Academia, nem recebendo uma homenagem. Está na redação. Lê o trabalho de um colega. Observa. Faz uma crítica ou um elogio. Essa cena cotidiana vale mais, para a finalidade do artigo, do que uma longa relação de títulos e prêmios. Porque nela está o Allyrio vivo. O jornalista aparece em seu ambiente natural, entre os colegas, atento ao que se escreve, exercendo espontaneamente sua autoridade intelectual.

Franca não precisa dizer que Allyrio era um mestre. Basta mostrar seu comportamento na redação. Outro aspecto importante do testemunho é que a admiração não produz distância. Franca admira Allyrio profundamente, chama-o de mestre e reconhece seu ‘eu’ prodigioso. Contudo, não o transforma numa figura inacessível.

Ele podia conversar com o pessoal da oficina. Tinha um sorriso simples. Era naturalmente simpático. Era tímido. Gostava de criticar e julgar, mas era justo. Essa combinação produz um retrato bastante humano.

Allyrio era um gênio, mas não era uma abstração. Era um homem que conversava, sorria, criticava, ensinava, discutia, lia os textos dos colegas e participava da vida cotidiana da redação.

É essa humanidade que faz com que sua morte seja sentida de maneira tão profunda por João Carlos Franca.

A morte de Allyrio como perda coletiva

Embora o texto seja pessoal, sua conclusão possui dimensão coletiva. Quando Franca afirma que não havia quem no jornal não admirasse Allyrio e que ele estava formando gerações para as “batalhas intelectuais do futuro”, a morte deixa de ser apenas uma perda individual.

É também uma perda para o jornalismo paraibano. A morte interrompia a atuação de um profissional que ainda tinha muito a ensinar e produzir. A expressão “ainda estava formando gerações” transmite exatamente essa sensação de obra interrompida.

Allyrio não morreu, portanto, apenas como indivíduo. Morreu um mestre em atividade. E essa é a razão da indignação de Franca contra a natureza, apresentada metaforicamente como “madrasta”. Entre tantos homens, a morte levou aquele que ainda podia contribuir para a formação intelectual de outros.

A memória contra o esquecimento

Publicado apenas três dias depois da morte, o artigo também possui a característica de um registro imediato. Ainda não havia distância histórica. A ausência era recente. As lembranças estavam vivas. A voz de Allyrio ainda parecia ecoar na redação.

Por isso, o texto possui uma espontaneidade que dificilmente poderia ser reproduzida décadas depois. Franca não escreve como historiador. Escreve como homem atingido pela perda.

Sua memória conserva cenas, frases, hábitos e impressões. E é justamente esse caráter espontâneo que torna seu testemunho tão precioso. Ele nos mostra não apenas aquilo que Allyrio significou depois de morto, quando passou a ser objeto de homenagem, mas aquilo que significava quando ainda estava vivo e circulava entre seus companheiros.

O discípulo diante do mestre

No fundo, ‘O meu amigo Allyrio’ é também a história de uma relação de aprendizagem. Franca observa o mestre, lê suas próprias palavras à luz da crítica recebida, acompanha seus comentários e guarda seus ensinamentos.

Quando Allyrio morre, o discípulo percebe que perdeu uma referência. Por isso escreve que não mais o verá “ao meu lado como uma sombra ou como um professor dedicado”.

A imagem da sombra é bonita e significativa. Allyrio estava sempre próximo, acompanhando, observando, ensinando. Sua presença fazia parte da rotina.

A morte torna perceptível aquilo que a convivência cotidiana havia naturalizado: a importância daquele homem. É somente quando o mestre desaparece que o discípulo compreende plenamente o tamanho do vazio deixado por sua ausência.

Um retrato que completa os demais

Ao falar de Allyrio Wanderley, João Carlos Franca deixou para a posteridade um testemunho de natureza distinta e indispensável. Se o escritor é visto por críticos como intelectual e romancista, por jornalistas como polemista e homem de imprensa, por estudiosos como representante de uma determinada tradição literária, nesse artigo é visto por um companheiro de redação.

Essa perspectiva acrescenta uma camada humana à sua memória. João Carlos Franca mostra um Allyrio atento, inteligente, exigente, justo, corajoso, prudente, simpático, tímido e irônico. Mostra também um homem consciente de seu próprio valor, mas que não se submetia diante de ninguém. Sobretudo, mostra alguém que sabia ensinar. E talvez essa seja a principal mensagem de seu testemunho: a grandeza de Allyrio não estava apenas naquilo que escreveu, mas também naquilo que transmitiu.

O Allyrio visto por João Carlos Franca

O artigo ‘O meu amigo Allyrio’, de João Carlos Franca, publicado em ‘O Norte’ na edição de 18 de janeiro de 1955, três dias após a morte de Allyrio Wanderley, é uma das manifestações mais espontâneas e afetivas produzidas imediatamente depois do desaparecimento do escritor. Seu valor reside menos na análise de sua obra e mais na capacidade de revelar o homem que existia por trás do nome consagrado.

João Carlos Franca era jornalista, cronista esportivo, poeta e homem de imprensa. Conhecia o ambiente jornalístico paraibano e compartilhava com Allyrio o cotidiano da redação. Por isso, sua homenagem possui uma autenticidade particular. Ele não fala de alguém que conheceu apenas através dos livros ou da reputação pública. Fala de alguém que viu chegar ao jornal, que acompanhou seus textos, que recebeu suas críticas e elogios, que ouviu seus ensinamentos e que aprendeu com sua experiência.

O Allyrio de João Carlos Franca é, antes de tudo, um mestre do jornalismo. Um mestre da língua e da profissão. Um homem atento, que lia os textos dos colegas antes mesmo que fossem encaminhados às oficinas, que possuía sempre uma observação, um elogio ou uma crítica, que conhecia os fatos, era bem informado e dificilmente se deixava enganar. Era corajoso sem ser imprudente; combativo sem deixar de ser justo, e, crítico sem perder a humanidade.

É também um homem que não estabelecia barreiras sociais no cotidiano da redação. Conversava com o pessoal da oficina com a mesma naturalidade com que enfrentava os grandes nomes da imprensa. Não era vaidoso, mas tinha consciência de seu valor. Não se humilhava diante de ninguém porque sabia aquilo que representava.

Essa consciência de valor, entretanto, não o afastava dos companheiros. Seu sorriso simples, às vezes irônico, sua timidez e sua natural simpatia compunham uma personalidade que, para Franca, escondia uma inteligência extraordinária.

“Ninguém o julgava o gênio que realmente era” – escreveu o amigo.

A frase talvez seja uma das melhores sínteses do testemunho de João Carlos Franca.

Há, finalmente, o Allyrio que ainda tinha muito a oferecer. Aquele que, nas palavras de Franca, estava “formando gerações para as batalhas intelectuais do futuro”. A morte, portanto, não representava apenas a interrupção de uma existência. Significava também a interrupção de uma ação formadora. Era essa consciência que tornava a perda ainda mais dolorosa.

João Carlos Franca não escreveu um estudo sobre o romancista porque não era essa sua intenção. Preferiu falar do homem que conheceu. E justamente por isso seu depoimento se torna tão importante. Outros poderiam avaliar os livros, discutir as ideias, examinar o estilo ou situar Allyrio na história da literatura brasileira. Franca oferece algo diferente: a memória de sua presença.

Ao terminar o artigo, não fala do escritor, do crítico, do polemista ou do intelectual. Volta ao começo e recupera a palavra que explica tudo: amigo.

“Agora, do meu amigo Allyrio apenas uma saudade. Uma tristíssima saudade”.

É nessa frase que João Carlos Franca encerra seu testemunho e, ao mesmo tempo, deixa aberta uma das mais belas portas para a compreensão humana de Allyrio Wanderley. O homem que havia sido “sumidade intelectual da nossa terra” e “jornalista de vulto nacional” era, para aquele que escrevia, simplesmente o amigo que não mais chegaria à redação, não mais leria seus textos, não mais faria uma crítica, um elogio ou uma observação. E talvez seja justamente por isso que o depoimento de João Carlos Franca permaneça tão vivo mesmo depois de sete decadas. Porque nele não encontramos apenas a memória de um grande escritor. Encontramos a memória de um homem que, em vida, ensinou, conviveu, orientou, criticou, admirou e foi admirado.

Allyrio Wanderley, visto por João Carlos Franca, é o mestre que permanece na lembrança do discípulo. O jornalista que continua ensinando mesmo depois da morte. O intelectual que não se humilhava diante de ninguém. O homem de sorriso simples e ironia discreta. O colega respeitado por toda uma redação. E, acima de tudo, o amigo cuja ausência transformou a rotina de uma página de esportes em uma página de luto.

Três dias depois de sua morte, João Carlos Franca já sabia que o tempo não apagaria aquela presença. Restava-lhe a saudade. Mas, junto com ela, permanecia o ensinamento. E é justamente aí que reside a permanência de Allyrio: naquilo que ele escreveu, certamente, mas também naquilo que ele ensinou aos homens que tiveram o privilégio de conviver com ele.

José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário