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Allyrio Wanderley visto por Permínio Ásfora – Da série “Allyrio Wanderley visto por…” (de José Ozildo)

O artigo de Permínio Ásfora, intitulado ‘A propósito de Bolsos Vazios’, ocupa lugar particularmente significativo entre as avaliações críticas feitas sobre a obra de Allyrio Wanderley ainda na primeira metade do século passado. Publicado em setembro de 1940, quando a obra de Allyrio ainda se encontrava próxima de seu momento de lançamento e o escritor vivia a fase mais intensa de sua atividade intelectual, o texto não constitui apenas uma resenha convencional do romance. É, sobretudo, uma leitura marcada pela simpatia, pela compreensão do drama humano do protagonista e pela identificação entre literatura e experiência de vida.

A importância desse testemunho aumenta quando se considera quem foi o seu autor. Permínio Ásfora nasceu em Valença, atual Pimenteiras, no Estado do Piauí, em 12 de julho de 1913, e morreu no Rio de Janeiro, em 12 de setembro de 2001. Romancista, jornalista, editor e político, formou-se em Direito pela Faculdade do Recife e teve atuação intelectual no Rio de Janeiro, onde colaborou em jornais. Sua trajetória literária também possui uma característica singular: é apontado como o primeiro escritor brasileiro de origem palestina a publicar um livro no Brasil e como autor da primeira obra literária brasileira a apresentar um protagonista palestino. Essa dimensão biográfica e intelectual ajuda a compreender a natureza do olhar que ele lança sobre ‘Bolsos Vazios’: não se trata simplesmente de um crítico distante examinando uma obra, mas de um escritor falando sobre outro escritor.

Há, ainda, um elemento que aproxima diretamente Permínio Ásfora de Allyrio Meira Wanderley. Os dois circularam pelo ambiente jornalístico do Rio de Janeiro e colaboraram em alguns dos mesmos jornais, compartilhando, portanto, parte daquele universo intelectual em que jornalismo, literatura, política e vida cultural se encontravam. Essa proximidade não autoriza, por si só, a presumir uma amizade íntima ou uma convivência permanente entre ambos, mas permite compreender melhor a familiaridade com que Ásfora se refere ao livro e ao seu autor. O artigo revela alguém que não está diante de um nome inteiramente estranho, mas de um escritor inserido no mesmo ambiente cultural e profissional.

Uma crítica que começa pelo leitor

A estratégia utilizada por Permínio Ásfora para abordar ‘Bolsos Vazios’ é curiosa e reveladora. Em vez de começar apresentando o enredo, o autor dirige-se diretamente ao leitor: “Ora, leitor amigo”. A expressão estabelece, desde as primeiras palavras, um tom coloquial, quase de conversa, afastando o texto do modelo rígido da crítica literária tradicional. Ásfora procura estabelecer uma cumplicidade com quem lê, como se estivesse sentado diante dele, comentando um livro que acabou de conhecer.

O ponto de partida é uma constatação aparentemente simples: um leitor pode não gostar de determinado romance mesmo quando esse romance recebeu elogios de muitas pessoas. O fato, segundo o articulista, pode decorrer simplesmente de a obra não possuir força suficiente para convencer aquele leitor. Com base nessa observação, não basta, portanto, que um livro esteja corretamente escrito, ou seja, formalmente bem elaborado: é preciso que ele consiga estabelecer uma comunicação efetiva com quem o lê.

Essa observação inicial prepara o terreno para aquilo que Ásfora pretende afirmar sobre ‘Bolsos Vazios’. Seu argumento é que a obra de Allyrio possui justamente essa capacidade de convencimento. Antes mesmo de entrar propriamente no conteúdo do romance, o crítico estabelece um critério de valor: a literatura não se sustenta apenas pela correção da linguagem ou pela reputação do autor, mas pela capacidade de atingir o leitor e provocar nele uma reação.

Essa concepção é importante porque revela uma característica da crítica de Ásfora: ele não procura fazer uma análise excessivamente técnica do romance. Seu interesse está muito mais na experiência humana produzida pela obra. O que importa não é apenas como Allyrio escreve, mas aquilo que seu livro consegue comunicar sobre a condição humana, sobre o sofrimento, sobre os conflitos interiores e sobre a situação do intelectual diante da sociedade.

O ambiente também interfere na leitura

Ásfora desenvolve, em seguida, uma reflexão interessante sobre a relação entre o leitor e o ambiente em que ele se encontra. Reconhece que a diversidade de experiências pode modificar a impressão provocada por um livro. Para demonstrar essa ideia, recorre a ‘A Bagaceira’, de José Américo de Almeida, imaginando um leitor hospedado em um hotel de Copacabana e colocado em contato com a realidade dos retirantes nordestinos descrita no romance.

O exemplo é significativo por duas razões. Primeiro, porque demonstra a familiaridade de Ásfora com a literatura brasileira de seu tempo. Segundo, porque coloca em evidência uma preocupação que também está presente em ‘Bolsos Vazios’: o contraste entre o indivíduo e o ambiente que o cerca.

O romance de Allyrio, conforme a leitura de Ásfora, não pode ser dissociado da experiência concreta de um homem deslocado, em dificuldade e em conflito com o mundo. A cidade grande não aparece apenas como cenário: ela participa do drama do personagem. O indivíduo encontra-se diante de uma realidade que não corresponde às suas expectativas, aos seus valores ou às suas aspirações.

Por isso, a crítica de Ásfora vai progressivamente abandonando a discussão abstrata sobre o gosto literário e entrando no terreno da existência. Seu verdadeiro objeto não é apenas o romance enquanto construção estética, mas o homem que o romance coloca diante do leitor.

‘Bolsos Vazios’ e a força de convencimento

É nesse ponto que Ásfora formula uma das avaliações mais importantes de seu artigo. Depois das considerações iniciais sobre gosto, sensibilidade e circunstâncias de leitura, ele afirma que Bolsos Vazios possui a necessária força de convencimento. Para ele, seria difícil que um leitor, independentemente de suas circunstâncias pessoais, deixasse de reconhecer a grandeza do livro.

A afirmação é particularmente expressiva porque não se limita a classificar o romance como bom. Ásfora utiliza uma categoria mais ampla: a grandeza. O livro, em sua perspectiva, ultrapassa a condição de uma narrativa bem escrita para alcançar uma dimensão humana capaz de produzir identificação. E essa grandeza parece estar diretamente relacionada ao personagem central. O articulista apresenta ‘Bolsos Vazios’ como a história de “um homem infeliz”, mas a infelicidade de seu protagonista não decorre simplesmente da pobreza material. Trata-se de um homem de pensamento, talentoso, culto e dotado de uma espécie de inquietação intelectual que o coloca em conflito com o mundo.

É nesse aspecto que a leitura de Ásfora se torna especialmente valiosa para a compreensão de Allyrio Wanderley. O protagonista não é apresentado apenas como um indivíduo que perdeu dinheiro ou que enfrenta dificuldades práticas. Seu drama é mais profundo: ele é um intelectual sem recursos, alguém que possui ideias, sensibilidade e aspirações, mas não dispõe dos meios materiais necessários para concretizá-las.

O drama do intelectual sem dinheiro

Talvez a definição mais sintética de ‘Bolsos Vazios’ esteja justamente na frase de Ásfora: “É o drama do intelectual sem dinheiro”.

A frase merece ser tomada como uma verdadeira chave interpretativa do romance. Os bolsos vazios, nesse sentido, não representam apenas a falta de dinheiro. Eles simbolizam a condição de um indivíduo que possui riqueza intelectual, mas enfrenta pobreza material. Há uma espécie de inversão entre aquilo que o homem é interiormente e aquilo que a sociedade reconhece ou recompensa exteriormente.

Ásfora amplia essa interpretação ao caracterizar o protagonista como um dos “bem intencionados que vivem sonhando com maneiras de consertar o mundo”. A expressão introduz uma dimensão idealista na leitura do romance. O personagem não é simplesmente um fracassado. Ele é alguém que deseja transformar a realidade, mas que encontra dificuldades para transformar a própria existência.

Essa observação permite perceber que o romance, na leitura de Ásfora, ultrapassa a narrativa individual. A história de seu protagonista representa um problema mais amplo: a situação do intelectual idealista diante de uma sociedade que não necessariamente reconhece seus valores, seus sonhos e suas aspirações.

A pobreza material, portanto, adquire uma dimensão simbólica. O título ‘Bolsos Vazios’ ganha uma força que ultrapassa o sentido literal. Os bolsos estão vazios, mas a mente está cheia de pensamentos, inquietações e projetos. O personagem possui pouco no plano material, mas carrega consigo uma riqueza interior que não encontra correspondência nas condições concretas de sua vida.

Allyrio Wanderley e o intelectual idealista

A maneira como o crítico descreve o protagonista de Bolsos Vazios permite aproximar literatura e trajetória intelectual do próprio autor. Ásfora fala de um homem talentoso, dotado de cultura e possuidor de um cérebro no qual passa, de vez em quando, “como uma alucinação genial”, a ideia da salvação dos homens. A formulação é carregada de significado. O intelectual aparece como alguém condenado a pensar, imaginar soluções e procurar saídas para problemas que são maiores do que sua própria existência.

Não é difícil perceber por que essa perspectiva poderia encontrar ressonância no próprio Allyrio. O escritor paraibano pertenceu àquela geração de intelectuais que fizeram do jornal, do livro e da atividade literária instrumentos de intervenção na vida pública. Sua produção não se restringia ao exercício estético. Como tantos escritores de sua época, esteve profundamente ligado ao jornalismo e às discussões políticas e sociais de seu tempo.

É importante, contudo, evitar uma identificação absoluta entre autor e personagem. Ásfora está comentando um romance e não escrevendo uma biografia de Allyrio. O protagonista de ‘Bolsos Vazios’ é uma criação literária. Ainda assim, a escolha que o crítico faz para definir o núcleo do livro – o intelectual culto, talentoso, idealista e materialmente desprovido – cria inevitavelmente uma imagem do próprio escritor por trás da obra.

A crítica, nesse sentido, funciona também como um testemunho de época. Ela mostra como um contemporâneo de Allyrio percebeu o significado de sua produção literária e quais aspectos considerava mais relevantes em seu universo ficcional.

A referência a Telmo Vergára e o tom de intimidade

O texto também revela um ambiente literário no qual os escritores conheciam uns aos outros, acompanhavam suas produções e dialogavam, ainda que informalmente, por meio de livros, jornais e artigos. Ao afirmar que ‘Bolsos Vazios’ não é “uma história tranquila” – acrescentando, em tom jocoso, “isso é com o senhor Telmo Vergára” – Ásfora introduz no artigo uma referência pessoal que rompe novamente com a crítica puramente acadêmica.

Esse procedimento dá ao texto um caráter quase conversacional. O crítico não se apresenta como uma autoridade distante que profere um julgamento definitivo. Ele conversa, brinca, provoca e conduz o leitor pelo romance. É como se o artigo fosse simultaneamente uma crítica literária e uma conversa entre homens pertencentes ao mesmo universo cultural.

Essa característica ajuda também a compreender a relação de proximidade intelectual que existia entre jornalistas e escritores naquele período. O jornal era espaço de circulação de ideias, de divulgação literária e de construção de reputações. Nesse ambiente, uma resenha poderia assumir importância muito maior do que a de uma simples apreciação editorial.

A literatura como confronto com a vida

Outro aspecto importante do artigo está na afirmação de que o leitor descobrirá, ao longo das centenas de páginas do romance, “como a vida é cruel para aqueles que querem se adaptar a certas condições incoerentes com uma conduta reta”.

Aqui, Ásfora formula talvez o mais profundo de seus julgamentos sobre o romance. O problema não é simplesmente a pobreza. Tampouco é apenas a solidão ou a infelicidade. O verdadeiro conflito surge entre o indivíduo e as condições de vida, que entram em choque com seus princípios.

A expressão “conduta reta” é decisiva. Ela introduz uma dimensão ética na leitura de ‘Bolsos Vazios’. O protagonista sofre porque não consegue – ou não quer – adaptar-se completamente a determinadas circunstâncias. Sua integridade torna-se, paradoxalmente, uma das causas de seu sofrimento.

Essa interpretação transforma o personagem em uma figura trágica. Ele não sofre necessariamente por ser incapaz, mas porque existe um descompasso entre seus valores e a realidade em que está inserido. O homem idealista é punido pelo mundo justamente por permanecer fiel a determinados princípios.

É provável que seja essa dimensão moral que explique a simpatia com que Ásfora trata o romance. O crítico não observa o protagonista de fora. Ele demonstra compreender sua angústia e reconhecer a legitimidade de seu conflito.

O intelectual entre a literatura e a realidade

Ásfora também identifica no romance aquilo que chama de um possível “defeito”: o senhor Wanderley teria a tendência de se preocupar demasiadamente em fazer literatura. Mas o comentário não é uma condenação. Ao contrário, ele imediatamente convida o leitor a prosseguir na leitura, a acompanhar os momentos de aflição do personagem e a penetrar em seu universo psicológico.

Esse trecho é revelador porque demonstra que o crítico reconhece conscientemente a dimensão literária da obra. Ele não está interessado em confundir romance e documento biográfico. Ásfora sabe que Allyrio está construindo literatura e que, portanto, há procedimentos ficcionais, escolhas estilísticas e elaboração artística.

Ao mesmo tempo, Permínio Ásfora considera que a literatura só alcança sua verdadeira força quando consegue revelar uma experiência humana. Por isso, seu interesse se volta para os momentos de aflição, para o complexo de inferioridade e para as questões amorosas vividas pelo personagem.

O romance aparece, assim, como uma investigação da interioridade. O sofrimento econômico é apenas uma das faces do problema. Por baixo dele existem sentimentos de inadequação, fracasso, amor, idealismo e solidão.

Diola e a dimensão sentimental do romance

Um dos momentos mais expressivos da crítica ocorre quando Ásfora se refere às questões amorosas do protagonista e reproduz a frase dirigida à sua Diola:

“Eu não te amei, porque os homens como eu não amam”.

A citação é curta, mas extremamente reveladora. Ela mostra que, para Ásfora, a dimensão amorosa não constitui um elemento secundário do romance. O amor integra o drama psicológico do protagonista e reforça a imagem de um indivíduo incapaz de experimentar a vida de maneira convencional.

A frase possui, inclusive, uma dimensão quase programática. O personagem se define pela impossibilidade de amar como os outros homens. Sua condição intelectual e idealista parece cobrar um preço também no plano afetivo.

Dessa maneira, Ásfora identifica no romance uma espécie de cadeia de renúncias: o homem que não consegue adaptar-se ao mundo também não consegue viver plenamente suas relações pessoais. O intelectual, o idealista e o homem apaixonado parecem estar submetidos a uma mesma dificuldade de conciliar interioridade e realidade.

‘Um misto de otimista e pessimista’

A síntese que Ásfora faz do personagem – e que pode ser tomada como uma das mais interessantes definições do universo espiritual de ‘Bolsos Vazios’ – aparece no final do artigo: “O sr. Alírio Vanderlei, é, como todo idealista, um misto de otimista e pessimista”.

A seguir, o crítico explica essa aparente contradição: o personagem é pessimista diante dos momentos que está vivendo, mas otimista diante dos dias futuros.  Essa definição é particularmente feliz porque elimina uma interpretação simplista do romance. O protagonista não é simplesmente um pessimista derrotado pelas circunstâncias. Se assim fosse, o título ‘Bolsos Vazios’ poderia representar apenas a constatação de um fracasso. Para Ásfora, porém, existe algo mais profundo: apesar das adversidades, permanece a expectativa de um futuro diferente.

O pessimismo pertence ao presente; o otimismo, ao futuro. Essa tensão constitui justamente a força do idealista. Ele sofre porque percebe as imperfeições do mundo, mas continua acreditando que esse mundo pode ser transformado. Por isso, a frase final do artigo possui enorme força interpretativa: “Nunca, em hora nenhuma, vemos a renúncia sair de sua boca”.

A palavra “renúncia” funciona como a chave de encerramento da crítica. O personagem pode estar pobre, infeliz, deslocado e atormentado. Pode carregar nos bolsos apenas o vazio que dá título ao romance. Mas, não renuncia às suas convicções.

Permínio Ásfora diante de Allyrio Wanderley

O testemunho de Permínio Ásfora ganha ainda maior importância quando colocado no contexto da trajetória dos dois escritores. Ásfora, nascido em 1913, pertencia a uma geração posterior à de Allyrio, mas suficientemente próxima para compartilhar com ele o ambiente intelectual e jornalístico das décadas de 1930 e 1940. Ambos fizeram do jornalismo um espaço de atuação intelectual e tiveram presença na imprensa carioca.

Essa proximidade profissional ajuda a explicar a segurança com que Ásfora apresenta ‘Bolsos Vazios’ e o seu autor. O texto não tem o tom de quem descobre um escritor completamente desconhecido. Ao contrário, existe uma familiaridade que se manifesta na maneira descontraída de tratar o romance, nas referências a outros escritores e no uso de expressões coloquiais.

É significativo, também, que Ásfora não procure construir uma crítica baseada exclusivamente na erudição. Ele escolhe falar da condição humana do personagem. Isso talvez diga tanto sobre o crítico quanto sobre o próprio Allyrio. Permínio Ásfora, sendo também romancista e jornalista, reconhecia na obra de seu contemporâneo não apenas um exercício literário, mas a representação de um conflito que poderia ser compreendido por quem vivia da palavra e do pensamento.

Assim, ‘A propósito de Bolsos Vazios’ é também um encontro entre dois escritores: um escrevendo sobre o outro, ainda que o objeto imediato seja um romance. É um encontro produzido no espaço da imprensa, onde os escritores daquela época construíam sua presença pública, discutiam livros, avaliavam seus pares e registravam, muitas vezes sem perceber, a memória intelectual de uma geração.

Uma imagem de Allyrio construída pelo olhar de Ásfora

Quando se reúne tudo o que Permínio Ásfora afirma ao longo de seu artigo, surge uma imagem bastante definida de Allyrio Wanderley. É a imagem de um escritor preocupado com a literatura, mas também com a existência. De um intelectual que conhece a realidade da pobreza e da adversidade. É a imagem de um homem que observa criticamente o mundo e procura encontrar nele alguma possibilidade de transformação.

Ásfora não apresenta Allyrio como um escritor simplesmente preocupado com a forma. Tampouco o reduz à condição de autor regional. Seu comentário procura alcançar o núcleo universal da obra: a luta do indivíduo idealista diante de uma realidade que não corresponde aos seus sonhos.

É justamente essa dimensão que faz com que o artigo permaneça relevante mais de oito décadas depois de sua publicação. A crítica de 1940 não interessa apenas porque registra a recepção contemporânea de ‘Bolsos Vazios’. Ela interessa porque oferece uma interpretação da personalidade literária de Allyrio. E essa interpretação parte de alguém que conhecia o universo em que o escritor atuava.

A própria estrutura do texto – que começa conversando com o leitor e termina definindo o protagonista como “um misto de otimista e pessimista” – demonstra que Ásfora não pretende apenas recomendar ou desaprovar um livro. Ele deseja fazer o leitor compreender que tipo de homem está por trás daquela história.

Um documento para a memória de Allyrio

Lido atualmente, ‘A propósito de Bolsos Vazios’ adquire, portanto, uma dimensão documental que vai além da crítica literária. O texto registra uma determinada maneira de enxergar Allyrio Wanderley em seu próprio tempo. Não é a visão retrospectiva de um pesquisador que, décadas depois, procura reconstruir sua trajetória. É o testemunho de um contemporâneo que lê, comenta e interpreta sua obra quando o escritor ainda estava inserido no ambiente cultural em que o romance circulava.

Essa condição confere ao artigo um valor especial para a reconstrução da recepção de Allyrio. A crítica de Ásfora demonstra que ‘Bolsos Vazios’ podia ser compreendido não apenas como uma narrativa de caráter individual, mas como uma representação do drama do intelectual idealista, colocado diante das dificuldades econômicas, sociais, afetivas e existenciais.

Também é revelador que a expressão que dá título ao romance seja reinterpretada pelo crítico. Os “bolsos vazios” representam a pobreza material, mas não significam necessariamente pobreza espiritual. O homem pode não possuir dinheiro e, ainda assim, conservar ideias, cultura, talento, esperança e princípios.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior homenagem de Permínio Ásfora a Allyrio Wanderley. Em vez de enxergar em ‘Bolsos Vazios’ apenas a história de um homem vencido pelas circunstâncias, ele enxerga um homem que continua pensando, sonhando e acreditando, mesmo quando a realidade parece conspirar contra ele.

Allyrio Wanderley visto por Permínio Ásfora

O olhar de Permínio Ásfora sobre Allyrio Wanderley é, em última análise, um olhar de reconhecimento. Reconhecimento do escritor, do intelectual e, sobretudo, do idealista. Ao comentar Bolsos Vazios, Ásfora identifica no romance uma experiência humana marcada pela pobreza, pela solidão, pelo conflito interior e pela dificuldade de conciliar princípios e circunstâncias. Mas, acima de tudo, identifica uma personagem – e, por extensão, um universo intelectual – que se recusa a aceitar a derrota como destino.

Sua frase final permanece como a síntese mais eloquente de todo o artigo: “Nunca, em hora nenhuma, vemos a renúncia sair de sua boca”. É precisamente nessa ausência de renúncia que Ásfora parece encontrar a grandeza de ‘Bolsos Vazios’. O personagem pode viver momentos de pessimismo, mas conserva o otimismo em relação ao futuro; pode experimentar a pobreza, mas não abre mão da riqueza de seu pensamento; pode enfrentar a incompreensão, mas não abandona seus ideais.

E é essa imagem que Permínio Ásfora deixa para a posteridade: Allyrio Wanderley como escritor e intelectual de bolsos talvez vazios, mas de pensamento cheio: um homem submetido às adversidades do presente, mas incapaz de renunciar à esperança de um futuro melhor.

O testemunho de Permínio Ásfora é particularmente precioso porque vem de um escritor que também conhecia as dificuldades da vida literária e jornalística e que, no ambiente da imprensa, esteve próximo do mesmo universo em que Allyrio atuou.

Em síntese, o artigo de Permínio Ásfora publicado em 15 de setembro de 1940,  no jornal ‘A União’, editado na capital paraibana, não apenas comenta ‘Bolsos Vazios’: ele ajuda a preservar a imagem de Allyrio Wanderley que seus contemporâneos guardaram e transmitiram às gerações seguintes.

José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário