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Ariano Suassuna visto por Elizabeth Marinheiro – Da série “Ariano Suassuna visto por…” (de José Ozildo)

Alguns textos de homenagem limitam-se à celebração. Outros, entretanto, conseguem transformar a lembrança em instrumento de interpretação. É o que ocorre em “Com Ariano, ontem e sempre”, artigo de Elizabeth Marinheiro publicado na página de Cultura do jornal ‘A União’, de João Pessoa, em 12 de julho de 2024.

Escrito quando se completavam dez anos da ausência física de Ariano Suassuna, o texto parte da memória pessoal, mas rapidamente ultrapassa o registro afetivo. A autora recompõe ambientes familiares, relembra aulas, encontros e episódios do convívio com o escritor e, ao mesmo tempo, retoma questões que durante décadas mobilizaram sua leitura do Romance d’A Pedra do Reino’ e o ‘Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta’. O resultado é um retrato construído na fronteira entre testemunho e crítica literária, no qual Ariano aparece simultaneamente como homem, professor, contador de histórias e criador de uma obra resistente às classificações simplificadoras.

Esse olhar possui uma origem intelectual definida. Elizabeth Figueiredo Agra Marinheiro, conhecida publicamente como Elizabeth Marinheiro, é escritora, crítica literária e professora universitária. Desde 2 de maio de 1980 ocupa a cadeira nº 20 da Academia Paraibana de Letras, tendo sido a primeira mulher a integrar a instituição como acadêmica. Sua trajetória inclui numerosos ensaios sobre literatura e teoria literária e dois reconhecimentos concedidos pela Academia Brasileira de Letras: o Prêmio José Veríssimo, em 1979, por “A bagaceira: uma estética da sociologia”, e o Prêmio Sílvio Romero, em 1983, por “Vozes de uma voz”. Esses dados ajudam a dimensionar a natureza de seu depoimento sobre Suassuna. Não se trata somente da recordação de alguém que conviveu com o escritor, mas da leitura de uma pesquisadora habituada a examinar estruturas narrativas, linguagens, símbolos e relações entre literatura e sociedade.

Por isso, o artigo publicado em ‘A União’ deve ser lido em duas direções complementares. De um lado, encontra-se a Elizabeth que volta à Avenida Visconde de Albuquerque, no Recife, recorda dona Ritinha, conversa com Selma, recebe Ariano em sua casa e conserva a memória de seu humor e de sua arte de contar histórias. De outro, está a crítica que observa o polimorfismo da ficção suassuniana, identifica a recorrência ao erudito e ao popular, recusa rótulos regionalistas e acompanha a passagem do real às fronteiras da irrealidade. Essas duas perspectivas não se anulam. Ao contrário, alimentam-se mutuamente e permitem compreender por que, no título escolhido por Elizabeth, Ariano pertence ao “ontem”, mas permanece no “sempre”.

Da casa de dona Ritinha à “ciranda familiar”: o Ariano da memória íntima

A porta de entrada escolhida por Elizabeth Marinheiro não é o palco, a universidade ou a consagração literária. É uma casa. A autora retorna, pela memória, à Avenida Visconde de Albuquerque, no Recife, onde era recebida por dona Ritinha Suassuna. Esse início é decisivo para a construção do retrato porque antecede o escritor célebre e o recoloca dentro de uma história familiar. Dona Ritinha é apresentada como viúva do presidente João Suassuna, assassinado em 1930, e como mãe de seis filhos educados sob a força de sua formação católica. Elizabeth não transforma a matriarca em figura abstrata: oferece um pequeno episódio cotidiano para demonstrar sua personalidade. Se uma lâmpada de um poste do bairro deixava de funcionar, ela acionava a empresa responsável e conseguia que o problema fosse resolvido. A lembrança aparentemente simples revela vigilância, energia e senso de responsabilidade, características que dão densidade humana ao cenário no qual Ariano é introduzido.

É significativo que a memória de Ariano surja ao lado da mãe e da irmã. Selma explicava seu trabalho nas artes plásticas quando Ariano chegava, segundo Elizabeth, trazendo o bom humor para aquela “ciranda familiar”. A palavra “ciranda” é particularmente expressiva. Evoca movimento coletivo, aproximação, circularidade e participação, sugerindo um ambiente no qual arte, conversa e relações familiares se misturavam. O escritor não entra na cena como personagem monumental; chega como membro da família, portador de uma disposição bem-humorada que altera a atmosfera do encontro. A lembrança permite perceber a naturalidade com que a criação artística parecia conviver com o cotidiano dos Suassuna. A atividade plástica de Selma, a presença de Ariano e a força de dona Ritinha compõem uma pequena constelação familiar que antecede qualquer análise de sua literatura.

Esse modo de começar também produz um importante efeito crítico. Ao recordar a família antes da obra, Elizabeth sugere que determinadas marcas da criação suassuniana não podem ser separadas de experiências profundas de pertencimento, perda e memória. O assassinato de João Suassuna, quando Ariano ainda era criança, aparece mais adiante no artigo como uma ausência persistente, uma melancolia que convive com o humor. Assim, a casa de dona Ritinha não é apenas cenário nostálgico: ela constitui um lugar simbólico de formação e continuidade. A figura materna, a memória do pai, os irmãos, a religiosidade e o convívio familiar ajudam a explicar a complexidade de um autor cuja persona pública seria marcada pelo riso, pela narrativa oral e pela defesa apaixonada de suas convicções, mas cuja obra também preservaria zonas de dor, conflito e transcendência.

Elizabeth conhece, portanto, um Ariano que não cabe na imagem simplificada do escritor engraçado. O humor está presente e é lembrado com carinho, porém surge ao lado de uma história familiar atravessada por trauma e resistência. Essa tensão entre luminosidade e sombra reaparecerá quando a crítica examinar a relação entre trágico e cômico na obra. O que primeiro se manifesta como lembrança biográfica depois se converte em chave de leitura estética. É uma das forças do depoimento: vida e literatura não são confundidas, mas dialogam continuamente. O Ariano que entra na “ciranda familiar” com seu bom humor é também o artista que transformará contrastes em princípio criador.

O professor, o contador de histórias e a presença que se transformava em espetáculo

Quando a memória deixa o espaço doméstico e alcança a vida pública, Elizabeth Marinheiro recupera as aulas-espetáculo realizadas na Universidade Federal de Pernambuco e as participações de Ariano nos Congressos Internacionais de Literatura em Campina Grande. A lembrança é breve no artigo original, mas possui grande poder de síntese. A expressão “aula-espetáculo” tornou-se inseparável da imagem pública de Suassuna porque descreve uma forma particular de transmissão cultural: ensinar sem transformar o conhecimento em discurso hermético, aproximando reflexão, música, poesia, narrativa oral e humor. Na evocação de Elizabeth, essas aulas pertencem à “década de saudade”, expressão que converte os dez anos transcorridos desde a morte do escritor em tempo de rememoração ativa.

O Ariano professor que emerge desse testemunho não abandona o artista quando entra no espaço acadêmico. Sua capacidade de contar, gesticular, provocar o riso e estabelecer relações entre universos culturais distintos converte a exposição intelectual em acontecimento. Essa característica é importante porque ajuda a compreender a extensão de sua presença para além dos leitores de suas peças e romances. Muitos conheceram Suassuna primeiramente pela palavra falada: conferências, entrevistas, aulas, apresentações públicas e histórias que circulavam de boca em boca. Elizabeth, que o observou nesses ambientes, registra justamente o poder de encantamento produzido pela presença do escritor. Seu depoimento sugere que a oralidade não era elemento periférico, mas parte essencial da forma pela qual Ariano pensava e comunicava cultura.

Um jantar realizado na casa da própria Elizabeth amplia esse retrato. A autora recorda camarões, bode assado, panelas de barro e tigelas de prata, compondo aquilo que chama de clima “armorial”. A cena parece condensar, materialmente, um princípio de convivência entre elementos diferentes. O barro e a prata, o alimento associado ao sertão e o requinte do serviço, a reunião doméstica e a dimensão simbólica do encontro formam uma composição que poderia ser lida como imagem da própria estética defendida por Ariano. Não se trata de opor o popular ao erudito, como se um devesse eliminar o outro, mas de colocá-los em relação, permitindo que o contraste produza uma nova unidade. O jantar lembrado por Elizabeth transforma-se, assim, numa espécie de pequena cena cultural.

Mais importante ainda é o modo como os convidados reagiam. Elizabeth fala do encantamento de amigas e amigos diante dos “folguedos” do homenageado, de seu modo de vestir e de sua arte de contar. Nessa observação há um Ariano performático, capaz de fazer da própria presença uma extensão de sua imaginação. A roupa, a voz, o gesto e a narrativa participavam da construção de uma figura pública singular. Isso não significa que Ariano representasse artificialmente um personagem. O que o testemunho evidencia é uma continuidade entre suas convicções estéticas, seu repertório cultural e sua maneira de estar no mundo. O contador de histórias que encantava uma mesa de jantar era o mesmo intelectual que fazia da oralidade um instrumento de pensamento.

Esse aspecto ajuda a entender por que as lembranças de Elizabeth não se organizam como inventário de fatos. Ela procura recuperar uma atmosfera. As aulas-espetáculo, os congressos e o jantar são momentos diferentes, porém unidos pela capacidade de Ariano de criar comunhão em torno da palavra. O professor não se reduz ao transmissor de conteúdos; o conferencista não é apenas expositor; o convidado não é presença passiva. Em todos esses espaços, a narrativa organiza o encontro. A memória de Elizabeth preserva, portanto, uma dimensão de Suassuna que os livros sozinhos não poderiam registrar: a experiência de ouvi-lo.

Elizabeth Marinheiro diante do romancista: da convivência à pesquisa literária

O testemunho adquire outra espessura quando Elizabeth Marinheiro explica por que decidiu estudar academicamente a ficção de Ariano. Em determinado período, segundo ela, ressaltava-se uma diferença importante na recepção do autor: sua dramaturgia era internacionalmente traduzida, enquanto o romance permanecia relativamente desconhecido. A observação revela um momento específico da fortuna crítica de Suassuna e explica o movimento da pesquisadora. Elizabeth não se contentou em reconhecer a importância do escritor; procurou enfrentar justamente a parcela de sua produção que considerava menos conhecida, tomando o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta como objeto de investigação.

Foi nesse contexto que apresentou à Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul a tese “Intertextualidade das formas simples”, recorrendo às formulações de André Jolles. O dado é central para compreender a autoridade do olhar expresso em “Com Ariano, ontem e sempre”. Elizabeth escreve a partir de uma convivência pessoal, mas também de uma longa familiaridade analítica com a arquitetura do romance. Quando menciona personagens, estruturas, símbolos, fantástico, messianismo, colagem, metalinguagem e relações entre erudito e popular, não está improvisando uma leitura comemorativa. Retoma problemas que pertencem a uma trajetória de estudo e que ajudam a explicar por que o texto publicado dez anos após a morte de Ariano se desloca naturalmente da recordação pessoal para a crítica.

A própria trajetória intelectual de Elizabeth reforça essa dimensão. Antes de ocupar, em 1980, a cadeira nº 20 da Academia Paraibana de Letras como primeira mulher a integrar a instituição, já havia obtido reconhecimento da Academia Brasileira de Letras pelo ensaio “A bagaceira: uma estética da sociologia”, vencedor do Prêmio José Veríssimo em 1979. Quatro anos depois, “Vozes de uma voz” receberia o Prêmio Sílvio Romero. Esses marcos demonstram que sua aproximação da obra suassuniana ocorre dentro de um percurso consolidado de investigação literária. Ao recordar Ariano, Elizabeth mobiliza não apenas a memória da amiga e contemporânea, mas instrumentos da professora e crítica habituada a pensar a literatura brasileira em suas formas, tensões e relações com a cultura.

No artigo, ela menciona ainda seu estudo “Arianamente”, veiculado pela revista Genius, editada pelo escritor Flávio Sátiro. A referência confirma que sua interlocução com Suassuna não se esgotou na tese. Há continuidade, retorno e reinterpretação. O próprio vocabulário utilizado por Elizabeth – “revisita”, “idas e vindas”, “alargar o compasso” – sugere uma crítica que não considera a obra encerrada por uma leitura definitiva. Ariano é um autor ao qual se retorna porque cada aproximação pode iluminar novas conexões. A memória dos encontros pessoais e a releitura do romance passam a fazer parte do mesmo movimento.

É também nesse ponto que o título “Com Ariano, ontem e sempre” revela sua estrutura mais profunda. O “ontem” corresponde às experiências vividas: a casa de dona Ritinha, os congressos, as aulas, o jantar, as conversas. O “sempre” nasce da permanência da obra e de sua capacidade de exigir novas interpretações. Elizabeth não apresenta a saudade como imobilização. A ausência física do escritor intensifica o retorno aos textos. Dez anos depois, a presença se reconstrói pela leitura, e a crítica literária funciona como uma das formas mais consistentes de preservar essa presença sem reduzi-la à nostalgia.

Entre o riso e a melancolia: o homem que alimenta o mito sem desaparecer dentro dele

Na sequência de sua revisita, Elizabeth reúne episódios que ajudam a formar a imagem pública e quase lendária de Ariano. Ela menciona uma aldeia associada à Onça Malhada, recorda o medo que o escritor tinha de avião e alude ao episódio em que teria trocado uma conferência por um par de bodes, Herculano e Castilho. São histórias que carregam o sabor do “causo”, categoria que a própria autora utilizará ao descrever o polimorfismo da ficção suassuniana. Esses episódios fazem rir, surpreendem e reforçam a singularidade do personagem Ariano Suassuna, mas Elizabeth evita permanecer apenas na superfície anedótica.

Ao lado desse universo bem-humorado, ela introduz a melancolia produzida pela saudade do pai. A menção é curta, porém decisiva. João Suassuna, ex-presidente da Paraíba, foi assassinado em 1930, quando Ariano era ainda criança. No artigo, Elizabeth não reconstrói historicamente o episódio nem procura explicar toda a obra por meio dele; limita-se a reconhecer a permanência de uma dor. Essa contenção torna a observação ainda mais expressiva. Por trás do homem capaz de provocar gargalhadas, havia uma memória de perda que atravessou sua vida. O riso, portanto, não elimina a melancolia; convive com ela.

Essa convivência oferece uma ponte para a compreensão da estética de Ariano tal como Elizabeth a interpreta. Mais adiante, ela afirmará que o trágico e o cômico constituem faces do mesmo signo. O depoimento biográfico antecipa essa formulação crítica. O homem e a obra compartilham, sem que se possa estabelecer uma equivalência mecânica, uma experiência de contrastes. O humor não é simples fuga da dor, assim como a tragédia não anula a possibilidade do riso. Em Suassuna, segundo o olhar de Elizabeth, esses polos coexistem e se fecundam.

É justamente essa complexidade que impede que o retrato se transforme em caricatura. Ariano poderia ser lembrado apenas pelo medo de avião, pelos bodes, pelas histórias engraçadas ou pela maneira peculiar de se vestir. Elizabeth conserva esses elementos porque eles pertencem à memória de quem o conheceu, mas os coloca ao lado do poeta, dramaturgo, artista plástico e romancista. A enumeração dessas diferentes atividades demonstra a amplitude de seu legado e impede que a persona pública eclipse o criador. O homem dos “causos” também é o autor de uma obra que exige instrumentos sofisticados de análise.

Há, portanto, uma espécie de espelhamento. A vida pública de Ariano produz narrativas; sua literatura absorve e reinventa formas narrativas oriundas de diferentes tradições; e Elizabeth, ao recordá-lo, volta a narrar essas histórias, agora submetendo-as ao filtro da saudade e da crítica. O mito pessoal de Suassuna não é rejeitado, mas reinserido numa compreensão mais ampla. O escritor pode ser simultaneamente engraçado e melancólico, popular e erudito, próximo e monumental. É essa capacidade de sustentar contrários que prepara o leitor para a parte mais analítica do artigo.

A “serpentina suassuniana”: personagens, símbolos e um romance sem percurso linear

Ao entrar diretamente no universo do Romance d’A Pedra do Reino, Elizabeth Marinheiro utiliza uma imagem particularmente fértil: a “serpentina suassuniana”. A metáfora sugere uma estrutura móvel, sinuosa e expansiva. Em vez de linha reta, há curvas; em vez de progressão simples, há idas e vindas. A própria composição do artigo parece acompanhar esse movimento, pois a autora passa da lembrança familiar à crítica, retorna a episódios pessoais e novamente mergulha no romance. A serpentina, portanto, pode ser compreendida tanto como descrição da ficção quanto como imagem do modo pelo qual a memória se aproxima de Ariano.

Elizabeth destaca a presença de personagens que reconhece como existentes – Euclides Vilar, Lino Pedra Verde e Coronel Antônio Morais – ao lado de figuras do universo ficcional, entre elas Sinésio, Samuel, Clemente, João Melquíades, Heliana e a bicha Bruzacã. A enumeração mostra como a narrativa se alimenta de materiais heterogêneos, aproximando referências do mundo vivido e invenção. A autora acrescenta até a disputa por penicos, lembrança que introduz o grotesco e o risível no interior de uma obra capaz de tratar, simultaneamente, de questões religiosas, políticas e míticas. É precisamente essa mistura que tornará insuficientes as tipologias rígidas.

O romance também se organiza em torno de motivos que Elizabeth considera decisivos: a saída para o lajedo e seu sentido religioso, o tesouro, o Quinto Império, a utopia e a formulação de um grande mito relacionado ao terceiro mundo global. A leitura associa esses elementos a uma gente submetida à violência do sol que seca a terra. O sertão aparece, portanto, em sua materialidade dura, mas não permanece restrito a uma descrição naturalista. A seca, o lajedo, o tesouro e a experiência religiosa entram numa rede simbólica que amplia a realidade e a conduz para territórios míticos.

A afirmação de que o romance é “isento dos pontos de partida e de chegada” deve ser compreendida dentro dessa lógica. Elizabeth não está dizendo que a narrativa carece de estrutura; ao contrário, identifica uma estrutura que recusa a linearidade convencional. O movimento de vai-e-volta anunciado no próprio título torna-se princípio de organização. Histórias, personagens, mitos, lembranças e discursos atravessam-se, produzindo uma narrativa que parece sempre capaz de abrir outro caminho. O leitor não percorre uma estrada reta; entra num labirinto em que cada desvio pode revelar uma nova camada de sentido.

Essa percepção ajuda a entender a importância de Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. Mais do que protagonista ou narrador de aventuras, Quaderna funciona como centro móvel de um universo discursivo em expansão. Em torno dele, a matéria histórica se mistura à imaginação, o sublime encontra o grotesco, a cultura letrada dialoga com tradições populares e o sertão se transforma em território mítico. Elizabeth percebe que a força do romance não reside apenas no que é contado, mas na maneira como diferentes formas de dizer são incorporadas e reorganizadas.

Por isso, a “serpentina” é uma imagem tão adequada. Ela preserva a ideia de festa e movimento, mas também a de algo que se desenrola, curva-se, ocupa espaços inesperados e altera continuamente sua direção. A obra de Ariano, vista por Elizabeth, não avança para uma conclusão que elimine as ambiguidades. Ela cria novas dobras. O romance permanece aberto à releitura porque seu sentido não se concentra numa única chave. Cada retorno pode modificar a percepção do conjunto.

O polimorfismo e a recusa dos rótulos: entre o erudito, o popular, o grotesco e o esplendoroso

É nesse ponto que Elizabeth formula uma das teses centrais de seu artigo: diante do “evidente polimorfismo” da ficção de Ariano, ela discorda das tipologias que procuram classificá-la de maneira rígida. Para a crítica, o processo ficcional suassuniano “recusa rótulos”. A afirmação é importante porque desloca a discussão de uma simples preferência terminológica para uma questão estrutural. Se a obra combina materiais, formas, registros e tradições muito diferentes, qualquer classificação única corre o risco de empobrecer aquilo que pretende explicar.

Elizabeth enumera alguns desses contrastes: o esplendoroso e o grotesco, o chiste e o “causo”, a colagem, a metalinguagem, o humor, a feiura e a beleza. A lista demonstra que a ficção não procura purificar seus materiais. O elevado não expulsa o baixo; o belo não elimina o feio; o humor pode conviver com a reflexão grave; a técnica literária sofisticada pode incorporar formas oriundas da oralidade. Essa simultaneidade constitui, para Elizabeth, uma das marcas mais fortes de Ariano. É justamente porque os elementos permanecem em tensão que a obra adquire sua identidade.

A crítica observa ainda que essa construção recusa estrangeirismos e fortalece a coloquialidade. A formulação deve ser entendida no interior da leitura que Elizabeth faz de Suassuna: a linguagem procura afirmar uma experiência cultural brasileira sem depender da submissão a modelos externos. Ao mesmo tempo, essa valorização do coloquial não significa rejeição da erudição. O próprio artigo insiste na recorrência simultânea ao erudito e ao popular. O projeto estético de Ariano, tal como aparece nesse testemunho, não consiste em escolher um dos polos, mas em criar uma forma capaz de fazê-los dialogar.

Esse diálogo ultrapassa a trama em torno de Quaderna. Elizabeth afirma que o conjunto de personagens e ações, associado à presença do erudito e do popular, ressignifica a simbologia da crítica social, da brasilidade e da própria condição humana. A observação é fundamental porque impede que o romance seja lido apenas como exercício de cor local ou celebração folclórica. Os materiais nordestinos e populares não aparecem como ornamento. Eles participam de uma reflexão mais ampla sobre poder, identidade, sofrimento, desejo, memória, fé e imaginação.

A brasilidade, nesse contexto, não é uma essência fixa. Ela é construída por cruzamentos. O popular pode ser reelaborado por procedimentos eruditos; a tradição pode ser recriada; a oralidade pode entrar na literatura escrita; personagens históricos podem conviver com figuras inventadas; a cultura sertaneja pode dialogar com mitos de alcance muito mais amplo. Elizabeth percebe nessa multiplicidade uma força de resistência contra classificações redutoras. Quanto mais se tenta fixar Ariano numa categoria única, mais sua obra apresenta elementos que escapam.

O conceito de polimorfismo também ajuda a explicar por que Elizabeth insiste em não separar forma e conteúdo. A crítica social, a brasilidade e a condição humana não aparecem apenas como temas declarados. São produzidas pela própria mistura de registros, vozes e materiais. A maneira de contar já é parte do que está sendo dito. O riso pode desmontar hierarquias; o grotesco pode revelar tensões ocultas; a colagem pode questionar a ideia de pureza cultural; a metalinguagem pode tornar visível o ato de narrar. A obra pensa enquanto conta.

É nessa perspectiva que o Ariano visto por Elizabeth se distancia tanto do escritor puramente regional quanto do intelectual desligado das matrizes populares. Ele ocupa uma zona de encontro. Sua literatura recolhe materiais localizados, mas os submete a um processo de transfiguração que os torna capazes de falar para além de sua origem imediata. O regional existe, mas não como limite; funciona como matéria de uma imaginação que busca o universal.

Do “sert-tão” ao universal: messianismo, fantástico, memória e condição humana

A parte mais densa do artigo de Elizabeth Marinheiro surge quando ela acompanha o movimento pelo qual o real, no romance de Ariano, aproxima-se das fronteiras da irrealidade. A autora menciona a proposta de um messianismo castanho, político e mítico, associando-a às transgressões e à decifração dos mistérios. Não se trata de abandonar o mundo concreto, mas de submetê-lo a um processo de ampliação simbólica. A realidade sertaneja permanece reconhecível, porém passa a coexistir com utopias, mitos, profecias, enigmas e construções imaginárias que alteram sua escala.

É nesse contexto que Elizabeth produz um jogo verbal de grande força: “sert-tão-ambíguo”, “ser-tão abissal” e “ser-tão universal”. A decomposição da palavra sertão abre novas possibilidades semânticas. O território geográfico transforma-se em experiência do ser. O sertão deixa de ser apenas espaço físico para tornar-se abismo, ambiguidade e universalidade. A operação crítica reproduz, em certa medida, o procedimento que a autora atribui a Ariano: a linguagem não apenas descreve uma realidade, mas a reinventa, revelando sentidos escondidos dentro das próprias palavras.

Essa formulação é especialmente importante para a recusa do regionalismo como rótulo suficiente. Elizabeth não nega que o sertão seja fundamental. Seria impossível fazê-lo diante da paisagem, das personagens, dos conflitos e das matrizes culturais que alimentam a obra. O que ela rejeita é a transformação dessa origem em fronteira. O sertão de Ariano, justamente por ser intensamente construído, pode converter-se em espaço para interrogar experiências humanas que não pertencem exclusivamente a uma região. A seca, a perda, a esperança, o poder, a fé, o medo, a violência, o desejo de grandeza e a necessidade de fabulação ultrapassam qualquer delimitação geográfica.

A memória desempenha papel decisivo nessa passagem. Elizabeth afirma que o narrador desconstrói roteiros e edifica cenas de uma peregrinação ditada pela “transfiguração da memória”. A expressão permite compreender que lembrar, na obra, não significa simplesmente reproduzir o passado. A memória transforma. Reorganiza acontecimentos, mistura tempos, amplia figuras e produz novos sentidos. A peregrinação narrativa não segue o caminho seguro de uma cronologia objetiva; avança por recriações, retornos e desvios.

Curiosamente, o próprio artigo de Elizabeth é construído segundo uma lógica semelhante. A autora não apresenta uma biografia linear de Ariano. Começa numa casa do Recife, passa pela família, chega às aulas e congressos, entra num jantar, desloca-se para a tese acadêmica, recupera episódios anedóticos e então mergulha no romance. Sua lembrança também é um vai-e-volta. O passado é selecionado e reorganizado à luz do presente, dez anos depois da morte do escritor. Assim, quando Elizabeth fala da transfiguração da memória em Suassuna, seu próprio texto demonstra como a memória pode produzir uma nova forma de presença.

Da ars poetica de Ariano, segundo ela, emergem tendências semântico-estilísticas que funcionam como suportes de uma cultura brasileira. Essa formulação liga linguagem e visão de mundo. O escritor não apenas utiliza temas brasileiros; procura construir formas de pensar e dizer capazes de dialogar com diferentes matrizes culturais do país. A cultura, nesse sentido, não é coleção de objetos estáticos, mas processo de criação e recriação.

A cosmovisão identificada por Elizabeth tem como uma de suas características mais fortes a coexistência do trágico e do cômico. São “faces do mesmo signo”. A formulação retoma, em plano estético, aquilo que o retrato humano já havia sugerido: o homem bem-humorado que carregava a saudade do pai; o contador de histórias que conhecia a melancolia; o artista capaz de fazer rir dentro de universos marcados por sofrimento. A obra não resolve a contradição; transforma-a em energia criadora.

Por isso, as variações do fantástico são tão importantes. Elizabeth fala de um labirinto no qual personagens vão e voltam, ultrapassam curvas, retas, vida e morte. O fantástico permite transformar aparência em realidade, acolher e expulsar a ilusão e criar aquilo que ela chama de “jogos do ser”. Esses movimentos rompem a horizontalidade e instauram direções para baixo e para cima, ampliando a dramaticidade. A imagem sugere profundidade e transcendência: a narrativa não se desloca apenas no espaço, mas em níveis de existência.

Ao final desse percurso, Elizabeth chega a uma conclusão decisiva: trata-se de um romance voltado para o Mundo e para o Homem. As maiúsculas conferem amplitude à afirmação. Depois de atravessar o sertão, os mitos, o Quinto Império, o grotesco, o popular, o erudito e o fantástico, a leitura desemboca na condição humana. É justamente essa passagem que torna insuficiente uma aproximação exclusivamente regionalista. O sertão permanece, mas torna-se um modo de alcançar o mundo.

“A esperança é posterior à agonia”: permanência, atemporalidade e a própria Elizabeth dentro do universo de Ariano

Poucas frases do artigo condensam tanto a interpretação de Elizabeth Marinheiro quanto a afirmação de que, “com Ariano Suassuna (ou seu narrador?) a esperança é posterior à agonia”. A pergunta colocada entre parênteses é tão importante quanto a sentença principal. Elizabeth hesita deliberadamente entre autor e narrador, evitando uma identificação simplista, mas reconhecendo que existe uma visão de mundo suficientemente forte para atravessar a experiência da obra. A esperança, nesse universo, não precede o sofrimento nem o neutraliza. Ela surge depois da agonia, como possibilidade conquistada após a travessia.

Essa ideia permite reler todo o retrato. A infância marcada pela perda do pai não impediu a construção de uma personalidade pública associada ao humor. A dureza do sertão não impede a invenção do fantástico. A gente “agredida pelo sol” não é reduzida à condição de vítima passiva; transforma sua experiência em mito, narrativa, religiosidade, riso e utopia. O trágico não destrói o cômico. A morte não encerra o movimento da memória. Em cada caso, a esperança não aparece como negação da agonia, mas como algo que se torna possível depois dela.

Por isso Elizabeth define o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta como portador de formas de pensar e dizer atemporais. A atemporalidade, aqui, não significa ausência de história. O romance está profundamente ligado a espaços, tradições e conflitos reconhecíveis. O que o torna capaz de atravessar o tempo é a maneira como esses materiais são transformados em questões que continuam abertas. Cada geração pode reencontrar no livro novas relações entre memória e invenção, poder e utopia, cultura popular e erudição, riso e sofrimento, realidade e fantástico.

O fechamento do artigo acrescenta uma última dobra ao relacionamento entre Elizabeth e Ariano. A crítica recorda que ela própria se tornou personagem de Dom Pajutero no Palco dos Pecadores, indicando inclusive o Livro II e a página 695. A informação altera retrospectivamente a posição da autora do depoimento. Elizabeth não é apenas alguém que observou Ariano de fora. Em determinado momento, foi incorporada por ele ao universo da criação. A estudiosa tornou-se personagem; quem analisava a ficção passou também a habitar, literariamente, uma de suas páginas.

Esse cruzamento oferece uma síntese particularmente expressiva da relação entre ambos. Elizabeth conviveu com a família Suassuna, ouviu Ariano, recebeu-o em casa, acompanhou suas aulas e conferências, estudou seu romance, escreveu sobre sua obra e acabou inscrita nela. Vida e literatura aproximam-se sem perder suas diferenças. É difícil imaginar imagem mais adequada para uma crítica que, dez anos depois da morte do escritor, retorna a ele por meio de lembranças e conceitos. Ariano permanece na memória de Elizabeth, e Elizabeth permanece, por sua vez, numa criação de Ariano.

É também por isso que “Com Ariano, ontem e sempre” ultrapassa a condição de homenagem circunstancial. Publicado em ‘A União’, jornal editado em João Pessoa, em 12 de julho de 2024, o texto registra uma relação intelectual e afetiva de longa duração. Seu valor está justamente na dupla perspectiva: oferece detalhes que somente a convivência poderia preservar e, simultaneamente, propõe interpretações que dependem de uma vida dedicada à crítica literária. O testemunho não separa o homem da obra, mas também não os confunde. Procura perceber como certos contrastes atravessam ambos e ajudam a explicar a força de uma presença cultural.

O Ariano Suassuna visto por Elizabeth Marinheiro é, assim, múltiplo. É o filho de dona Ritinha e o homem marcado pela ausência do pai; o irmão que chega bem-humorado à conversa familiar; o professor das aulas-espetáculo; o participante dos congressos de literatura; o convidado capaz de transformar um jantar em ambiente “armorial”; o homem que temia avião e protagonizava histórias de bodes; o poeta, dramaturgo, artista plástico e romancista; o criador de Quaderna e de uma “serpentina” narrativa que mistura personagens, mitos, colagem, humor, grotesco, beleza e metalinguagem.

Mas talvez a característica mais importante desse retrato seja justamente a impossibilidade de encerrá-lo numa definição. Elizabeth insiste no polimorfismo, na ambiguidade e no movimento. Seu Ariano não cabe num rótulo regionalista, porque o sertão se torna “ser-tão universal”; não cabe na oposição entre erudito e popular, porque ambos se encontram; não cabe na divisão entre tragédia e comédia, porque são faces do mesmo signo; não cabe sequer na separação simples entre realidade e fantasia, porque o real se desloca continuamente em direção à irrealidade. O escritor permanece porque sua obra continua em movimento.

Ao escolher as palavras “ontem e sempre”, Elizabeth Marinheiro constrói, enfim, uma definição temporal da permanência. O ontem é o espaço da convivência: a casa, a família, a mesa, a universidade, Campina Grande, as conversas e os episódios guardados pela memória. O sempre pertence à obra, à releitura e à capacidade de Ariano continuar provocando interpretações. Entre um e outro está a saudade, não como encerramento, mas como impulso para retornar. Dez anos depois de sua morte, Elizabeth não encontra um autor imóvel no passado. Encontra uma presença que continua a ir e voltar, como o próprio romance, pelas curvas da memória e da literatura.

José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário