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Ariano Suassuna visto por José Mário da Silva – Da série “Ariano Suassuna visto por…” (de José Ozildo)

Um olhar crítico sobre um criador múltiplo

Em um artigo publicado no jornal ‘A União’ [de João Pessoa], em 16 de fevereiro de 2023, sob o título “Ariano Suassuna – um esteta modelar”, o professor José Mário da Silva acrescenta uma perspectiva particularmente fértil para a compreensão de um autor cuja presença na cultura brasileira ultrapassou, há muito, as fronteiras de qualquer gênero literário isolado.

O referido artigo não se limita a reiterar a consagração do escritor paraibano. Seu interesse maior está na tentativa de apreender a unidade profunda existente por trás da extraordinária diversidade de sua produção. Para José Mário, Ariano deve ser visto como um verdadeiro criador, capaz de se movimentar pelos mais variados campos da manifestação estética sem perder a coerência de um projeto artístico reconhecível.

Esse ponto de partida é decisivo. Em lugar de reduzir Ariano ao dramaturgo do Auto da Compadecida ou ao romancista de A Pedra do Reino, José Mário da Silva chama atenção para uma obra que considera fascinante, complexa e ainda aberta a novas leituras. Mesmo reconhecendo a existência de numerosa fortuna crítica, ele sugere que o universo suassuniano permanece suficientemente amplo para desafiar pesquisadores e leitores. É uma observação importante porque recoloca Ariano não apenas no território da celebração, mas também no da investigação. Um clássico, nessa perspectiva, não é aquele sobre quem já se disse tudo; é justamente aquele cuja obra continua produzindo perguntas e oferecendo caminhos interpretativos.

Ao lembrar estudiosos como Elizabeth Marinheiro, Sônia Ramalho, Carlos Newton Júnior e Hildeberto Barbosa Filho, José Mário situa sua própria leitura dentro de uma tradição crítica consolidada. Há, portanto, no artigo, um gesto de reconhecimento aos intérpretes que ajudaram a iluminar diferentes faces da criação de Ariano. A referência especial a Elizabeth Marinheiro e ao pioneirismo de seus estudos indica que a recepção acadêmica do escritor também possui uma história que precisa ser considerada. Assim, o retrato construído por José Mário não surge isoladamente: dialoga com uma cadeia de leituras que, ao longo das décadas, procurou compreender a complexidade de um autor ao mesmo tempo profundamente regional e declaradamente universal.

É nesse enquadramento que a expressão “esteta modelar” ganha força. José Mário não está apenas atribuindo a Ariano uma excelência técnica. O termo aponta para uma concepção abrangente do artista, para alguém que transformou a própria relação com a cultura, a memória, o Sertão, a tradição e a morte em matéria de um projeto estético. A leitura proposta, portanto, é menos biográfica do que interpretativa, embora a biografia seja convocada em momentos essenciais. O homem e a obra aparecem interligados, sobretudo quando as experiências fundadoras da infância e a perda do pai passam a explicar determinadas obsessões temáticas que atravessam a produção suassuniana.

José Mário da Silva e a leitura de Ariano

A leitura ganha contornos ainda mais significativos quando se observa quem a assina. José Mário da Silva é professor adjunto da Universidade Federal de Campina Grande, vinculado à Unidade Acadêmica de Letras, e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal da Paraíba. Integra a Academia Paraibana de Letras e a Academia de Letras de Campina Grande, além de exercer a vice-presidência do Clube Pensamento/Estudo/Nacionalidade – Primeira Seccional PEN da Paraíba. Sua atuação reúne, portanto, docência universitária, crítica literária, ensaísmo e participação em instituições voltadas à vida cultural e literária.

Além dos livros que publicou, José Mário levou parte de sua produção ensaística à Revista da Academia Brasileira de Letras, na qual publicou sete ensaios. Sua presença na imprensa também é constante: como colunista semanal de A União e colaborador do suplemento literário Correio das Artes, mantém uma atividade crítica que aproxima o universo acadêmico do leitor de jornal. Essa dupla inserção ajuda a compreender a linguagem de “Ariano Suassuna – um esteta modelar”: trata-se de um texto intelectualmente denso, marcado por vocabulário crítico e referências literárias, mas concebido para circular fora dos limites estritos de uma revista científica.

Ao escrever sobre Ariano, José Mário assume a posição de um leitor que conhece a fortuna crítica do autor e, simultaneamente, demonstra admiração por sua obra. Essa admiração, contudo, não conduz a uma simples enumeração de méritos. O crítico seleciona alguns eixos: a multiplicidade artística, a síntese entre contrários, a defesa da cultura popular, a centralidade da poesia, o enraizamento sertanejo, a experiência trágica provocada pela morte de João Suassuna e a capacidade de transformar sofrimento em criação. São esses elementos que estruturam o perfil e permitem compreender por que Ariano lhe aparece como um artista de excepcional inteireza.

Há também uma afinidade evidente entre o objeto analisado e o tipo de crítica praticada por José Mário. Ariano é apresentado como escritor que recusou compartimentos rígidos; José Mário, por sua vez, procura acompanhá-lo nesse movimento, transitando entre teatro, romance, poesia, ensaio, performance e pensamento cultural. O resultado é um retrato panorâmico, mas não superficial. Cada uma dessas dimensões converge para uma tese maior: por trás da diversidade formal existe uma concepção de mundo, e é essa concepção que confere unidade ao conjunto.

O artista caleidoscópico e a coreografia dos contrários

Um dos trechos mais expressivos do artigo é aquele em que José Mário enumera as diferentes faces de Ariano. Ele surge como contador de causos e histórias, artista performático, romancista, dramaturgo, ensaísta, polemista e poeta. A enumeração não tem apenas função laudatória. Ela evidencia a impossibilidade de compreender Ariano a partir de uma única atividade. Sua criação se expande por linguagens distintas e encontra na oralidade, na escrita, no palco, na conferência e na polêmica diferentes meios de realização.

José Mário define essa produção como “caleidoscópica”. A imagem é precisa porque sugere diversidade de formas que, ao se movimentarem, recompõem incessantemente uma unidade. Em Ariano, o erudito se aproxima do popular; o sagrado convive com o profano; o solene encontra o trivial; o transcendente se mistura ao prosaico; o sério se deixa atravessar pelo burlesco. Não se trata de justapor elementos incompatíveis, mas de fazê-los participar de uma mesma visão artística. A riqueza estaria justamente nessa capacidade de acolher tensões sem dissolvê-las.

Essa “coreografia dos contrários”, como sugere a formulação de José Mário, ajuda a explicar o fascínio exercido pela obra de Ariano sobre públicos tão diversos. O riso pode surgir diante da miséria; a religiosidade convive com a astúcia; a morte aparece ao lado da festa; o grotesco se aproxima do sublime. Em vez de empobrecer a realidade por meio de classificações rígidas, Ariano a representa em sua mistura constitutiva. É dessa convivência de opostos que emerge uma percepção ampla do “espetáculo da existência”.

Entretanto, a existência, no retrato de José Mário, não é vista como espetáculo leve. Por trás da comicidade, da invenção verbal e da exuberância narrativa permanece uma angústia fundamental. O crítico identifica uma dimensão de tragicidade inseparável da visão de mundo suassuniana. Esse aspecto é fundamental para impedir que Ariano seja reduzido à imagem pública do contador de histórias espirituoso e do conferencista capaz de provocar gargalhadas em auditórios lotados. A graça, em sua obra, convive com a consciência da finitude; o riso não elimina a morte, mas frequentemente se ergue diante dela.

É justamente nessa combinação que José Mário percebe uma das marcas da grandeza de Ariano. O artista não escolhe entre o luminoso e o sombrio. Trabalha com ambos. Sua estética é capaz de reconhecer a precariedade humana sem abandonar a beleza, e de reconhecer a morte sem renunciar à força criadora da vida. O universo estético daí resultante não é homogêneo, mas integrado por tensões que se convertem em energia artística.

Armorial: cultura popular, identidade e resistência

Outro eixo central do artigo é a relação de Ariano Suassuna com o Movimento Armorial, lançado na década de 1970 e ao qual permaneceu ligado até o fim da vida. José Mário destaca que a atuação estética de Ariano privilegiou a cultura popular, investigando suas fontes, seus motivos e suas possibilidades expressivas. Esse compromisso não significava reproduzir mecanicamente formas tradicionais, mas reconhecer nelas matéria viva para a criação de uma arte brasileira erudita profundamente vinculada às raízes populares.

Na visão apresentada, o popular não é tratado como elemento decorativo ou como curiosidade folclórica. Ele constitui uma fonte estruturante. O romanceiro, a oralidade, os folhetos, as formas musicais, a imaginação sertaneja, a religiosidade e os repertórios visuais associados ao Nordeste tornam-se componentes de um projeto que procura elaborar artisticamente uma identidade sem submetê-la aos padrões dominantes da indústria cultural. O Armorial aparece, assim, como uma tentativa de criação e também como uma tomada de posição.

José Mário enfatiza justamente o lado polemista de Ariano ao tratar desse assunto. O escritor dirigia suas críticas contra aquilo que considerava formas de empobrecimento ou “abastardamento” da cultura nacional, especialmente quando associadas à cultura de massa e à lógica mercadológica. Era uma postura que naturalmente gerava controvérsia. Ariano não escondia suas preferências nem procurava adaptar seu discurso ao consenso. Sua intervenção pública fazia parte do mesmo projeto que orientava sua produção artística.

Essa dimensão permite compreender o esteta modelar também como intelectual público. Ariano não se limitou a produzir obras; formulou uma concepção de cultura e a defendeu de maneira persistente. Sua estética possuía consequências críticas. Ao valorizar repertórios populares e questionar processos de homogeneização cultural, reivindicava o direito de uma tradição local dialogar com o universal sem desaparecer nele. O Sertão, nessa perspectiva, não deveria ser superado para que se alcançasse a universalidade: poderia constituir precisamente o caminho para ela.

A leitura de José Mário ajuda, portanto, a perceber que a defesa da cultura popular não era um setor isolado da atuação suassuniana. Ela se relacionava à literatura, ao teatro, à poesia, à música, às artes visuais e à própria performance pública do escritor. A unidade do projeto armorial reside nesse trânsito, nessa busca por correspondências entre linguagens distintas e na convicção de que a cultura brasileira poderia produzir formas sofisticadas sem romper com suas matrizes populares.

A poesia como fundamento oculto da obra

Talvez a contribuição mais instigante do artigo de José Mário da Silva esteja na ênfase conferida à poesia de Ariano Suassuna. Para o grande público, o nome de Ariano está imediatamente ligado ao teatro e ao romance, sobretudo ao Auto da Compadecida e a A Pedra do Reino. José Mário, entretanto, insiste em deslocar esse foco. A poesia, afirma, não ocupa uma posição secundária na arquitetura da obra. Ao contrário, desempenha função central e estruturadora.

Essa afirmação modifica a maneira de olhar para o conjunto suassuniano. Se a poesia é fundamento, então suas imagens, seus símbolos, seus ritmos e suas obsessões devem ser procurados também no teatro e na prosa. O poético deixa de designar apenas um gênero e passa a funcionar como uma espécie de matriz da criação. José Mário lembra que o próprio Ariano declarou repetidamente considerar sua poesia a fonte de toda a produção estética. O desconhecimento dessa dimensão, por isso, produz uma leitura incompleta.

O artigo aponta duas razões para a menor visibilidade da poesia. Uma delas seria a tendência da crítica de concentrar atenção nas regiões mais conhecidas de determinado universo artístico. A outra, registrada a partir de Carlos Newton Júnior, relaciona-se à circunstância editorial: durante muito tempo, parcela significativa dos poemas permaneceu inédita ou pouco acessível em livro. A ausência de circulação ampla contribuiu para que o poeta ficasse encoberto pelo dramaturgo e pelo romancista.

Nesse ponto, José Mário reconhece expressamente a contribuição de Carlos Newton Júnior, estudioso que dedicou trabalhos acadêmicos e publicações à obra de Ariano e desempenhou papel decisivo na divulgação de sua poesia armorial. Ao publicar antologias e estudos, Carlos Newton ajudou a tornar visível uma região da obra que permanecia menos conhecida. O reconhecimento demonstra novamente que o artigo de José Mário é construído em diálogo com outros intérpretes.

Recuperar o poeta Ariano é, para José Mário, recuperar uma chave de leitura. A poesia concentra motivos que atravessam toda a obra: o Sertão, a origem, a memória, o pai, a morte, o erotismo, a transcendência e a busca de transfiguração. Por isso, ela não pode ser entendida como apêndice. É um núcleo irradiador. Vista desse ângulo, a multiplicidade de Ariano deixa de parecer dispersão e passa a revelar uma coerência subterrânea.

O Sertão, as origens e o sentimento trágico da existência

A poesia de Ariano é caracterizada por José Mário como profundamente telúrica. O termo aponta para uma ligação visceral com a terra, especialmente com o Sertão que marcou etapas decisivas de sua formação. Esse espaço não comparece apenas como cenário geográfico. É território da memória e das origens, lugar a partir do qual se organiza uma visão de mundo. José Mário fala em uma espécie de “odisseia das origens”, expressão que sugere retorno permanente a um ponto fundador.

O Sertão suassuniano, portanto, não é apenas observado: é interiorizado. Sua paisagem incendiada, sua dureza, sua religiosidade, suas histórias e seus códigos simbólicos transformam-se em matéria estética. É simultaneamente ponto de partida e ponto de chegada. O escritor pode percorrer tradições eruditas, dialogar com formas medievais, com o romance, com o teatro e com a filosofia, mas retorna a esse território originário para reorganizar as experiências.

José Mário aproxima essa visão do “sentimento trágico da existência”, associado ao pensamento de Miguel de Unamuno. A referência ajuda a aprofundar o perfil. O trágico, aqui, não corresponde apenas à ocorrência de acontecimentos dolorosos; diz respeito a uma consciência da precariedade humana, ao confronto com a morte e à impossibilidade de resolver completamente as contradições da existência. Ariano teria construído sua arte sob essa tensão, buscando beleza sem ignorar a ferida.

Esse elemento também ilumina a presença simultânea do sagrado e do profano. Diante da finitude, a obra procura formas de transcendência, mas não abandona o corpo, o humor, o desejo ou as contingências do cotidiano. O humano permanece dividido entre elevação e queda. A criação artística transforma essa divisão em linguagem. Por isso, a tragicidade apontada por José Mário não conduz a uma estética monocromática: ela convive com a comicidade e, justamente por isso, ganha maior intensidade.

Na leitura proposta, o enraizamento histórico não impede a universalidade. O drama nasce de uma experiência localizada, mas toca questões comuns à condição humana. É nesse movimento que o Sertão se expande. Quanto mais Ariano mergulha em suas origens, mais encontra temas que ultrapassam a geografia: perda, memória, justiça, amor, morte, fé, desejo e permanência.

A morte do pai e a transfiguração da ferida

Entre todas as experiências biográficas evocadas no artigo, nenhuma recebe peso comparável ao assassinato de João Suassuna, pai de Ariano. José Mário interpreta esse acontecimento como uma ferida decisiva na formação da consciência trágica do escritor. A perda ocorrida quando Ariano ainda era criança não permaneceu confinada ao passado. Transformou-se em memória recorrente e em matéria de criação, reaparecendo sob diferentes formas no imaginário literário do autor.

A frase atribuída a Ariano — segundo a qual escrevia como um filho que protestava contra a morte do pai — sintetiza essa ligação entre biografia e literatura. José Mário percebe nesse gesto uma tonalidade de resistência ética. Escrever não significaria simplesmente recordar o morto, mas recusar que a violência tivesse a última palavra. A literatura converte a ausência em presença simbólica e faz da criação uma forma de enfrentamento do irreparável.

O artigo recorre ainda a uma lembrança de Ariano sobre o único pôr do sol que teria visto ao lado do pai, memória associada a uma piranha morta encontrada à margem de um riacho. Na reconstrução simbólica do escritor, a morte de João Suassuna faria entrar em sua vida o “sol negro” da morte. A imagem possui extraordinária força porque condensa afeto, perda, infância e pressentimento. O pai torna-se Rei e Cavaleiro; a lembrança pessoal é transfigurada por uma linguagem de natureza mítica.

É precisamente essa transfiguração que interessa a José Mário. A experiência dolorosa não é apresentada como explicação simplista de toda a obra, mas como uma de suas nervuras essenciais. O lírico, o épico e o dramático encontram nessa ausência uma fonte de tensão. Vida e morte aparecem como faces inseparáveis de uma realidade enigmática, e a arte procura estabelecer entre elas uma ponte.

A memória paterna também ajuda a compreender por que a criação de Ariano está tão frequentemente associada a reinos, cavaleiros, linhagens, perdas e restaurações simbólicas. O acontecimento histórico passa pelo trabalho da imaginação e adquire outra escala. A literatura não desfaz o trauma; oferece-lhe forma. É nesse processo que o sofrimento individual alcança uma dimensão estética capaz de comunicar-se com experiências humanas muito mais amplas.

Poesia, redenção e permanência de um projeto estético

Na parte final de sua leitura, José Mário da Silva insiste que a poesia de Ariano nasce de experiência humana concreta, mas não permanece aprisionada a ela. Dotada de domínio técnico, converte as asperezas do real em matéria de transfiguração. A ideia de redenção ocupa, então, posição importante. A poesia surge como possibilidade de conferir sentido e forma àquilo que, no plano da existência, se apresenta como perda, violência e finitude.

Essa função transfiguradora não conduz, contudo, a uma recusa da vida. José Mário chama atenção para a presença de um veio erótico intenso na poesia suassuniana. O erotismo, nessa leitura, liga o escritor às fontes vitais, às energias do corpo e à força dionisíaca da existência. É um contraponto decisivo à consciência da morte. Se o “sol negro” acompanha a memória do escritor, há também uma energia que insiste em afirmar a vida.

Por isso, Ariano não é apresentado como autor niilista. A consciência da finitude não desemboca no vazio absoluto. A arte oferece resistência. A beleza, o humor, o desejo, a religiosidade, a memória e a invenção tornam-se maneiras de responder ao destino humano. Essa tensão entre saber-se mortal e continuar criando talvez seja uma das razões pelas quais José Mário considera sua obra exemplar.

Ao encerrar “Ariano Suassuna – um esteta modelar”, José Mário sintetiza a criação do escritor como plural, fecunda, historicamente enraizada e universal em seus temas. O juízo final é de grande amplitude: em todos os gêneros cultivados, Ariano teria construído um dos projetos estéticos mais inteiros de seu tempo. Mais do que elogio, a formulação procura nomear a coerência existente entre poesia, teatro, romance, ensaio, pensamento cultural e atuação pública.

Visto por José Mário da Silva, Ariano Suassuna aparece, assim, como artista de muitas faces e de um único compromisso profundo: transformar em beleza as tensões fundamentais de sua experiência e de sua cultura. O menino marcado pela perda, o homem apaixonado pelo Sertão, o polemista defensor da cultura popular, o fundador do Armorial, o dramaturgo, o romancista e o poeta pertencem ao mesmo projeto. Não são identidades sobrepostas ao acaso, mas manifestações de uma visão estética que procurou reconciliar, sem apagar suas diferenças, o popular e o erudito, o riso e a tragédia, a carne e o espírito, a origem e a universalidade.

É essa inteireza que faz do artigo de José Mário uma contribuição valiosa para a série “Ariano Suassuna visto por…”. Seu texto chama o leitor a ultrapassar a imagem mais difundida do escritor e a reencontrar, por trás dela, o poeta e o pensador da existência. Ao fazer isso, recorda que a obra de Ariano continua a exigir novas aproximações. A consagração não encerrou sua leitura. Pelo contrário: quanto mais se percorre sua cartografia estética, mais evidente se torna que ainda existem territórios a explorar.

Na perspectiva de José Mário, essa permanência também decorre da capacidade de Ariano de converter elementos muito particulares de sua trajetória em imagens que excedem a circunstância que lhes deu origem. O pai perdido, o Sertão da memória, a cultura popular e a consciência da morte não ficam restritos ao documento autobiográfico. Reaparecem transfigurados em personagens, símbolos, imagens poéticas e situações dramáticas. É justamente essa passagem do vivido para a forma que assegura à obra uma autonomia estética e permite que leitores distantes da experiência histórica do autor reconheçam nela conflitos que também lhes pertencem.

Por esse motivo, revisitar Ariano pela leitura de José Mário da Silva significa reencontrar um escritor cuja celebridade não deve obscurecer a complexidade. O artigo publicado em A União funciona como convite para que a crítica continue avançando sobre regiões menos frequentadas de sua produção, sobretudo a poesia, e para que o público compreenda a unidade existente entre criação artística e pensamento cultural. A imagem final é a de um autor que fez da tradição matéria de invenção e da própria ferida uma linguagem de permanência, construindo uma obra que continua viva justamente porque não se deixa reduzir a uma fórmula única.

José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário