Um encontro entre o fardão e a viola
Em 9 de agosto de 1990, a Academia Brasileira de Letras abriu suas portas para receber Ariano Suassuna. Coube a Marcos Vinicios Rodrigues Vilaça pronunciar o discurso de recepção do novo acadêmico. Pouco mais de um mês depois, em 21 de setembro daquele ano, o ‘Jornal do Commercio’, do Rio de Janeiro, publicou o pronunciamento na página 22 de sua edição, na seção “Especial”, sob o título “A obra suassuniana foge do banal”. É esse documento, marcado ao mesmo tempo pela solenidade acadêmica, pelo humor nordestino e pela interpretação crítica da obra de Ariano, que oferece o ponto de partida para mais um capítulo da série “Ariano Suassuna visto por…”.
Marcos Vilaça não recebeu Ariano com a distância protocolar que tantas vezes caracteriza cerimônias acadêmicas. Desde as primeiras linhas, seu discurso procura aproximar a Academia do universo cultural do homenageado. O ingresso na Casa de Machado de Assis é traduzido para a linguagem das casas sertanejas: ao chamado de “ó de casa”, a Academia responderia “ó de fora”. A imagem estabelece imediatamente uma ponte entre dois espaços que poderiam parecer distantes – o Petit Trianon e o Sertão – e anuncia uma das ideias que atravessam todo o discurso: em Ariano, o erudito e o popular não se anulam, mas se encontram.
A própria eleição é narrada com o humor que Vilaça reconhece como traço inseparável da personalidade de Suassuna. Ao ser informado de que seria candidato único à vaga de Genolino Amado, Ariano teria reagido perguntando se aquilo era realmente bom, pois ainda poderia “perder para ninguém”, acrescentando a lembrança irônica de que sua família não tinha boa tradição eleitoral desde 1930. A anedota, longe de ser gratuita, apresenta o personagem que Vilaça pretende revelar: um intelectual capaz de ingressar na mais tradicional instituição literária brasileira sem abandonar a irreverência, a memória familiar ou o modo nordestino de contar uma história.
Para Vilaça, a incorporação de Ariano à Academia era natural justamente porque o escritor não era um “academicista”. A instituição poderia reconhecer a grandeza de sua obra, mas não criá-la. Academias, observa o orador, não fazem escritores maiores ou menores; oferecem reconhecimento e convivência. Essa distinção permite que o fardão seja recebido sem que se converta em prisão. O novo acadêmico poderia permanecer fiel às suas posições, às suas polêmicas e ao seu conhecido espírito de liberdade.
Nesse ponto, o discurso já estabelece uma imagem que retornará no encerramento: a união do fardão com a viola. O primeiro representa a tradição institucional da Academia; a segunda, o universo dos cantadores, do repente e da cultura popular nordestina. Marcos Vilaça não pretende que Ariano troque uma coisa pela outra. Ao contrário, deseja que as duas convivam. A chegada de Suassuna à ABL seria significativa precisamente porque levava para dentro da Casa de Machado de Assis uma tradição que vinha dos folhetos, das feiras, das cantorias e do Sertão.
Marcos Vinicios Vilaça: o acadêmico que recebeu Ariano
Nascido em Nazaré da Mata, Pernambuco, em 30 de junho de 1939, Marcos Vinicios Rodrigues Vilaça construiu uma trajetória que reuniu literatura, magistério, direito, jornalismo, administração pública e vida acadêmica. Professor, advogado, jornalista, ensaísta e poeta, integrou instituições culturais de grande importância, entre elas a Academia Brasileira de Letras, a Academia Pernambucana de Letras, a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasiliense de Letras. Exerceu ainda funções de relevo no Tribunal de Contas da União, do qual foi ministro e presidente.
Na Academia Brasileira de Letras, tornou-se o sétimo ocupante da cadeira 26. Eleito em 11 de abril de 1985, sucedeu ao poeta pernambucano Mauro Mota e foi recebido, em 2 de julho daquele ano, por José Sarney. Posteriormente, coube-lhe receber três acadêmicos: Ariano Suassuna, Alberto da Costa e Silva e Marco Maciel. Presidiu a ABL no biênio 2006-2007. Na Academia Pernambucana de Letras, foi o primeiro ocupante da cadeira 35, eleito em 1965, e presidiu a instituição no biênio 1970-1972. Vilaça morreu no Recife em 29 de março de 2025, aos 85 anos.
Essa trajetória ajuda a dimensionar o significado de seu discurso sobre Ariano. Vilaça não fala apenas como integrante de uma instituição encarregado de cumprir um ritual. Fala como intelectual nordestino capaz de reconhecer os códigos culturais que alimentaram a obra do novo acadêmico. Sua leitura combina intimidade com o repertório regional e amplo conhecimento da crítica literária brasileira. Ao longo do pronunciamento, mobiliza Rachel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Antonio Houaiss, Gilberto Freyre, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi, Eduardo Portella, Lígia Vassallo, Silviano Santiago, Raimundo Carrero e outros intérpretes.
O resultado é um retrato construído por múltiplas vozes. Vilaça parece consciente de que uma obra como a de Suassuna não cabe numa definição isolada. Recorre a críticos, poetas e escritores para iluminar aspectos diferentes do mesmo universo, mas conserva um eixo interpretativo próprio: a autenticidade de Ariano nasce da capacidade de transformar experiência histórica, memória familiar e tradição popular em criação pessoal, sem folclorismo estreito e sem submissão a modelos externos.
O discurso também revela proximidade afetiva. Ariano não é apenas o autor estudado; é alguém com quem o orador compartilha referências, lugares, amizades e uma espécie de gramática cultural nordestina. Daí a naturalidade com que episódios familiares, lembranças, gracejos e referências literárias aparecem lado a lado. O perfil resultante possui a densidade da crítica, mas preserva o calor da homenagem.
A ferida da infância e o pai transfigurado
Entre os muitos elementos destacados por Marcos Vilaça, nenhum possui peso biográfico maior do que o assassinato de João Suassuna. A morte do pai aparece como a batalha decisiva de uma existência que, segundo o orador, seria atravessada por muitas batalhas. João Suassuna tomba na história, mas renasce simbolicamente no exemplo e na criação do filho. Vilaça recorre à própria poesia de Ariano para mostrar a profundidade dessa presença: o pai transforma-se em figura régia, cavaleiresca, ligada ao ouro, ao gibão, à viola, ao sangue e às mortes do Sertão.
A perda precoce não é tratada como simples informação biográfica. Ela constitui uma chave para compreender a formação de Ariano. Vilaça fala numa tragédia de infância marcada por impressões duradouras de dor. É desse terreno que o escritor emerge para defender ideias, questionar concepções estabelecidas de cultura, construir uma dramaturgia de extraordinária força e desenvolver uma obra romanesca profundamente ligada ao Brasil. A dor não conduz ao silêncio: converte-se em energia criadora.
Ariano, observa Vilaça, pertence ao grupo de escritores que, tendo vivido uma infância rural, inventam terras e reinos. Entretanto, essa invenção não corresponderia a fuga ou escapismo. Trata-se de uma forma de recriação e enriquecimento poético do real, uma tentativa de recapturar, pela imaginação, aquilo que a experiência histórica tornou irrecuperável. O reino literário não apaga a realidade; reorganiza-a simbolicamente.
Essa dimensão permite compreender por que vida e arte aparecem tão fortemente entrelaçadas. Vilaça recupera a observação de José Augusto Guerra segundo a qual, em Suassuna, ambas se completam na fala, nos gestos, nas lembranças e nas confissões. A obra não pode ser destecida da experiência sem que se perca parte de seu sentido. A memória familiar, a violência política, a viuvez precoce da mãe, os códigos de honra e o aprendizado sertanejo constituem materiais que reaparecem transformados em personagens, imagens, conflitos e concepções de mundo.
A infância também teria produzido amadurecimento antecipado. No discurso, Vilaça convoca versos de Ariano em que o menino se percebe lançado num mundo hostil, marcado pelo acaso, pelo sangue, pelo sonho despedaçado e pela luta. Essa percepção trágica, contudo, nunca se torna puro desespero. Uma das características mais importantes do retrato construído por Vilaça é justamente a capacidade suassuniana de manter juntos sofrimento e beleza. O mundo pode ser cruel e, simultaneamente, digno de ser vivido.
O Sertão como palco do homem universal
Marcos Vilaça dedica parte expressiva de seu discurso ao Sertão. Mas faz questão de afastar uma interpretação simplificadora: Suassuna não teria restringido o mundo ao Sertão; teria feito do Sertão o palco dos dramas do homem de qualquer latitude. Essa formulação é uma das mais importantes do texto, porque explica a relação entre regionalidade e universalidade na obra do escritor. O particular não aprisiona o significado. Ao contrário, fornece-lhe forma concreta.
O Sertão de Ariano é o Sertão seco, áspero, de vaqueiros vestidos de couro, de sol interminável, macambiras, gravatás, coroas-de-frade, facheiros, chocalhos de cabra e tonalidades castanhas. Vilaça diferencia esse espaço de outras configurações literárias do sertanismo e percebe nele uma essencialidade quase bíblica. A paisagem não funciona apenas como fundo. Participa da estrutura espiritual das histórias e condiciona a maneira pela qual seus personagens enfrentam o destino.
É nesse ambiente que convivem o sangue da tragédia e o riso violento da comédia. Vilaça recupera a própria defesa de Ariano contra aqueles que o acusavam de representar um Sertão alegre e belo como se ignorasse suas dificuldades. Para Suassuna, a beleza sertaneja não equivalia a amenidade. O Sertão seria despojado, grandioso e capaz de produzir riso e coragem justamente no interior da aspereza. A beleza não elimina a crueldade; nasce em confronto com ela.
João Cabral de Melo Neto é chamado ao discurso para reforçar essa capacidade de fazer nascer um espaço mágico e feérico de uma região situada “à beira do quase”. A criação suassuniana transforma a caatinga e a escassez sem falseá-las. A imaginação não é negação do real, mas resposta a ele. É desse paradoxo que emerge a força de sua literatura: do espaço aparentemente reduzido surge um universo simbólico vastíssimo.
A formação de Ariano é reconstruída por Vilaça a partir dessa paisagem. Nascido em 1927 na capital paraibana, retorna ainda criança com a família para a fazenda Acauhan. Ali, o menino entra em contato com os cantos do povo, aprende a ler folhetos e romances populares, ouve cantadores como Antônio Marinho e Antônio Marinheiro e assiste ao mamulengo. Descobre as gravuras das capas dos folhetos e os ritmos do martelo, do galope e da sextilha. Aquilo que mais tarde seria reconhecido como um projeto estético começa, nessa leitura, como experiência vivida.
Versos, prosa e teatro, portanto, pertencem à experiência vital do escritor. O mundo de sol e poeira, dos atores ambulantes e bonecos de mamulengo, de juízes, avarentos, homens e mulheres comuns, pecadores e sobreviventes fornece tipos, vozes e situações. Vilaça, apoiando-se também em Silviano Santiago, afasta a ideia de um nativismo fechado. O vínculo com a região não impede o diálogo com outras tradições; tampouco aceita que a cultura brasileira precise viver permanentemente endividada diante do estrangeiro.
A astúcia, o povo e a obra que foge do banal
É ao tratar dos personagens e da tradição popular que Marcos Vilaça chega à expressão que dá título ao texto publicado pelo Jornal do Commercio: “A obra suassuniana foge do banal”. A afirmação não é um elogio genérico. Vilaça explica por que isso acontece. A literatura de Ariano se alimenta de anônimos, inclusive de homens e mulheres sem formação letrada, mas transforma essa matéria por meio de uma poderosa elaboração artística. O cotidiano é observado em sua dimensão mágica e humana.
Raimundo Carrero é lembrado para salientar que a fabulação, a agilidade dos diálogos, a construção das cenas, a escolha dos personagens e a arquitetura das tramas permanecem fiéis a uma determinada concepção de arte e de mundo. Vilaça chama Ariano de ressuscitador da memória e da alma de sua gente. Essa expressão sintetiza um aspecto fundamental: a tradição não chega à obra como peça de museu, mas como matéria que volta a viver.
Também a esperteza dos personagens recebe interpretação particular. Aquilo que, visto superficialmente, poderia parecer desonestidade ou falta de compostura é compreendido como recurso de sobrevivência. Vilaça formula uma síntese memorável ao observar que, no Nordeste, “a astúcia é a coragem do pobre”. A inteligência transforma-se em arma diante da adversidade. João Grilo e tantas outras figuras do universo suassuniano podem ser entendidos dentro dessa lógica: sobrevivem porque sabem ler rapidamente as relações de poder e encontrar frestas no sistema que os oprime.
A obra foge do banal porque não banaliza o homem comum. Ao contrário, concede dignidade estética às suas estratégias, crenças, medos, desejos, contradições e esperanças. O material popular é submetido à imaginação de um escritor que conhece profundamente as formas eruditas, mas que não considera a cultura letrada superior às experiências acumuladas pelo povo. A originalidade nasce dessa empatia.
Vilaça recorre a Antonio Houaiss para reforçar que a inserção de Ariano no tradicional não significa falta de invenção. O novo pode nascer do velho mediante combinação criadora. Essa ideia é essencial para compreender Suassuna: sua originalidade não depende de romper ostensivamente com tudo o que veio antes. Ela consiste, muitas vezes, em reorganizar materiais antigos, aproximar tradições, modificar funções e produzir novas relações entre elementos conhecidos.
Rachel de Queiroz, por sua vez, é convocada para aproximar Suassuna de Villa-Lobos e Portinari. Nos três, haveria o milagre da integração do popular com o erudito, associando lembrança, tradição e vivência à originalidade pessoal. A comparação situa Ariano numa linhagem de artistas brasileiros cuja modernidade não exige o abandono das raízes. É justamente a capacidade de transformar essas raízes que lhes confere força.
Religiosidade, crítica social e liberdade
A religiosidade ocupa espaço relevante na leitura de Marcos Vilaça. O teatro suassuniano é apresentado como obra de amplo significado religioso, vinculada à tradição cristã e, ao mesmo tempo, capaz de recuperar e renovar caminhos antigos da dramaturgia. Vilaça percebe no Auto da Compadecida uma crítica social de acento cristão, na qual o humor não destrói a espiritualidade. A irreverência pode coexistir com a fé.
Essa combinação provocou interpretações contraditórias. O discurso recorda que Suassuna chegou a ser acusado, por setores conservadores, de produzir diálogos ofensivos à religião; por outro lado, também sofreu críticas de patrulhas ideológicas situadas no extremo oposto. Vilaça apresenta essas reações como evidência da independência do escritor. Ariano não cabia confortavelmente nos esquemas que tentavam enquadrá-lo.
Décio de Almeida Prado é lembrado para aproximar a dramaturgia de Ariano da misericórdia concedida aos pobres, enquanto Ângelo Monteiro é citado na caracterização de um teatro de ideias que não se reduz a teatro ideológico. Geraldo Costa Manso, Lígia Vassallo e Eduardo Portella aparecem na discussão das matrizes medievais e ibéricas, da oralidade e da integração dessas formas ao Nordeste. O conjunto das referências mostra que a tradição europeia e a cultura popular nordestina não são vistas como polos excludentes.
A estrutura teatral encontra equivalência no universo religioso porque o palco pode funcionar como microcosmo da história humana. Em Ariano, os personagens perguntam, mesmo quando o fazem através da comicidade, pelo significado da existência, da justiça, da culpa e da salvação. A dor é frequentemente transfigurada em riso. Essa capacidade de rir diante da precariedade constitui uma forma de resistência.
Vilaça também relaciona criação e atuação pública. Suassuna estudou Direito, mas abandonou a advocacia; tornou-se professor de Estética e exerceu funções de gestão cultural no Recife. Para o orador, sua trajetória desmente a ideia de que ao intelectual estaria vedado o campo da ação. Ao atuar na administração cultural, Ariano procurou ampliar o espaço da cultura popular, aproximando prática e teoria.
Essa dimensão pública permite que Vilaça associe o pensamento cultural de Ariano a uma discussão mais ampla sobre o Nordeste. Em determinado momento, o discurso deixa a análise estritamente literária e combate estereótipos depreciativos sobre a região, defendendo sua capacidade de desenvolvimento e sua integração ao projeto nacional. A defesa cultural do Nordeste converte-se, assim, em reivindicação de reconhecimento social, econômico e político.
O Movimento Armorial e a união do popular com o erudito
O Movimento Armorial surge no discurso como consequência natural da concepção artística de Ariano. Vilaça recorda sua atuação como dirigente cultural e o esforço de colocar a cultura popular em ambientes cultos. O projeto não se restringia à literatura. Estendia-se à cerâmica, à pintura, à música, à poesia e a outras formas de criação, reunindo artistas que buscavam dialogar com o Romanceiro Popular do Nordeste.
São mencionados nomes como Francisco Brennand, Miguel dos Santos, Maximiano Campos, Raimundo Carrero, Cussy de Almeida, Guerra-Peixe, Antônio José Madureira, Janice Japiassu, Marcus Accioly e Zélia Suassuna. A enumeração evidencia a amplitude do projeto. O Armorial pretendia estabelecer correspondências entre diferentes linguagens e encontrar, nas matrizes populares, possibilidades de criação erudita contemporânea.
Vilaça identifica ligações diretas com a literatura de cordel, a viola, a rabeca, o pífano, os cantares populares, a xilogravura e as formas de espetáculo do povo. Entretanto, ressalta que esse movimento ocorre sem “caipirismos”. A distinção é importante. O regionalismo sectário se limitaria ao que é imediatamente transferível da natureza ou dos costumes; a obra de Ariano buscaria o que há de intransferível e, por isso mesmo, de transregional.
Essa formulação ajuda a compreender o aparente paradoxo da estética suassuniana. Quanto mais profundamente se vincula ao Nordeste, mais condições encontra para comunicar-se universalmente. A expressão linguística pode ser popular e regional, enquanto a construção artística e os conflitos humanos ultrapassam fronteiras. Teatro, poesia e romance participam dessa dupla condição.
O Armorial, visto por Vilaça, não é simples programa de preservação. É operação criadora. O velho romanceiro, a gravura popular e os instrumentos tradicionais não são conservados como relíquias, mas reativados em novas formas. A tradição se torna matéria de futuro. Essa leitura se articula perfeitamente à observação de Houaiss sobre a possibilidade de o novo nascer de combinações criadoras do velho.
Nesse sentido, o ingresso de Ariano na Academia ganha valor simbólico. O homem que aprendera com cantadores e folhetos entra na instituição máxima das letras brasileiras sem deixar esse universo do lado de fora. Vilaça chega a sugerir que o diploma da Academia Brasileira de Letras seja colocado ao lado daquele concedido por uma associação de cantadores e violeiros. A imagem sintetiza sua leitura: Machado de Assis e os cantadores nordestinos podem compartilhar a mesma parede.
Entre o trágico e o risível: a permanência de Ariano
Nas páginas finais do discurso, Marcos Vilaça volta ao humor e à intimidade para completar o retrato. Recorda episódios envolvendo Zélia Suassuna, Francisco Brennand e até um padre que, sem reconhecer Ariano pelo nome, termina por associar o Auto da Compadecida a outra obra. Essas histórias não funcionam como apêndices. Elas reproduzem, no próprio discurso, a estrutura que Vilaça atribui ao universo suassuniano: solenidade e comicidade, erudição e anedota, fardão e viola.
A obra trafega entre o trágico e o risível. Vilaça recorda a concepção de Ariano segundo a qual pode existir beleza naquilo que faz parte do comportamento humano risível. O riso, entretanto, não é fuga. Assim como a astúcia pode ser coragem do pobre, a comicidade pode ser maneira de enfrentar a dor. O universo de Suassuna permanece atravessado pela tragédia da infância e pela violência do mundo, mas não entrega ao sofrimento o monopólio da existência.
É por isso que a homenagem termina recorrendo à poesia e à cantoria. Marcos Vilaça afirma que tudo o que disse ainda seria pouco diante da dimensão de Ariano e anuncia o desejo de combinar fardão e viola. Evoca Manuel Bandeira e sua admiração pelos cantadores nordestinos e transforma simbolicamente a solenidade acadêmica num desafio poético. Ariano Suassuna e Marcus Accioly são convocados para uma cantoria em forma de martelo.
A escolha do repente para encerrar o discurso é extremamente significativa. Em vez de concluir apenas pela retórica institucional, Vilaça “cede a retórica à poética”. A Academia, naquele momento, torna-se também espaço da cantoria. A noite acadêmica pode prolongar-se até o nascer do sol, como acontece nos desafios de viola. A tradição popular não comparece como convidada menor: assume o centro da cerimônia.
Visto por Marcos Vinicios Vilaça, Ariano Suassuna é, portanto, muito mais que dramaturgo consagrado. É filho de uma história familiar marcada pela violência; homem formado pela paisagem e pela cultura do Sertão; escritor que transformou a memória em reino; intelectual que recusou classificações simplificadoras; artista capaz de integrar cultura popular e repertório erudito; cristão que fez da misericórdia e da justiça matéria dramática; polemista que enfrentou censuras de lados opostos; e criador que encontrou na graça uma maneira de responder à dureza da vida.
A expressão “a obra suassuniana foge do banal” adquire, ao final, todo o seu sentido. Ela foge do banal não porque despreze o cotidiano, mas justamente porque sabe enxergar nele aquilo que o olhar apressado não percebe. Os pobres, os cantadores, os bonecos, os folhetos, os vaqueiros, os astutos, os pecadores e os sonhadores são elevados à condição de matéria artística sem perder a identidade. Ariano transforma o que recebeu de sua gente, mas não rompe o vínculo com ela.
Trinta e cinco anos depois daquele discurso de recepção, a morte de Marcos Vilaça, em março de 2025, acrescentou uma dimensão histórica ao documento. Permanecem suas palavras como testemunho de uma noite em que um acadêmico nordestino recebeu outro e procurou explicar à Casa de Machado de Assis por que aquele escritor chegava acompanhado de um mundo inteiro. Vilaça viu em Ariano uma obra inseparável da vida, do Sertão e do povo; uma obra na qual tradição não significa repetição, regionalidade não significa isolamento e humor não significa superficialidade.
O testemunho de Marcos Vinicios Vilaça possui valor especial justamente porque combina interpretação literária, convivência intelectual e circunstância histórica. Seu discurso registra o momento da consagração acadêmica sem transformar Ariano em estátua. O escritor continua inquieto, engraçado, contraditório e livre. Entra de fardão, mas traz consigo a viola. E talvez seja essa a imagem mais duradoura deixada por Vilaça: a de um Ariano capaz de fazer a mais solene das casas literárias ouvir, em meio aos ritos da imortalidade, a voz viva dos cantadores do Nordeste.
José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário
