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Vida & TV – Do projeto ao lacre: a decadência dos debates na TV – por Edson de França

Há instituições que nasceram para perdurar, rasgar o pano do tempo, mantendo-se vivas, atrativas, criativas e envolventes. Camaleônicas, mudam permanentemente dentro de seu próprio casulo. Sque entem o estalo das estações e se reinventam.

Existem, porém, aquelas de fôlego curto, sempre a exigir repaginações que os atores são incapazes de promover. Entre essas, encaixo, sem nenhum receio de crítica, os debates entre candidatos na TV. Esses, de fato, envelheceram muito mal, talvez não devido à fórmula, mas ao conteúdo que foi ocupando seu espaço.

O debate é uma criação midiática para exposição de propostas dos candidatos e análise do mérito de cada uma delas. É, teoricamente, um serviço à democracia. Uma forma popular de o eleitor conhecer os candidatos, suas cartas de intenções, seus modos de enxergar e reagir às questões mais delicadas da vida nacional.

Assim como a fase dos grandes oradores — que não vivi — ficou na memorialística nacional, os grandes debates também parecem ter sido recolhidos a uma pasta perdida, mas ainda alcançável. Se resgatados minimamente, dariam uma boa inspiração para as performances atuais e futuras. Funcionariam, assim, como um bom upgrade para o modelo.

Historicamente, o confronto Nixon versus Kennedy, em 1960, inaugurou a era televisiva. No Brasil, os embates de 1989, repletos de densidade política e paixão retórica, cumpriam o papel de confrontar projetos de um país que experimentava o início de uma redemocratização. Atualmente, a sensação é de estagnação: a forma engessada deu lugar a um teatro de recortes pensados para as redes sociais, onde o lacre vale mais do que a proposta.

Não sou eu apenas, um cronista puto, que sente o desgaste da fórmula. Uma olhada rápida na internet e eis a constatação de uma série de sinais da perda de substância dos debates atuais. A ditadura do soundbite, onde a solidez do discurso de convencimento do eleitor dá lugar aos cortes para o TikTok ou Instagram; formatos ultraengessados, em que regras rígidas e tempos de resposta microscópicos impedem o aprofundamento de temas complexos, favorecendo acusações ad hominem em detrimento do debate programático; e, finalmente, a desidratação do conteúdo, ou seja, a ausência de oratória refinada e de visões estratégicas, que transformou o palco em uma arena de provocações pessoais e fuga de perguntas diretas.

Soou muito teórico neste final, mas hás de concordar comigo, leitor: não vale a pena assistir a um debate hoje. Seus problemas reais, seja você idealista ou mente retrógrada, não estão espelhados ali. A mídia faz sua parte: promove, abre o espaço, propagandeia a iniciativa e produz, ao final, um circo de horrores. Enquanto, correndo por fora, os sites miúdos, num arremedo de integração de mídias, tentam realizar uma cobertura em tempo real. Perdão de tempo.

Uma cadeirada com imagem vale mais que dez mil palavras explicando como um candidato tal meteu o dedo no olho do outro. Para esse espetáculo, o debate produtivo não foi convidado.

Edson de França (EFE) é jornalista, cronista e poeta pessoense.