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Ariano Suassuna visto por Gilberto Freyre – Da série “Ariano Suassuna visto por…” (de José Ozildo)

Gilberto Freyre diante do teatro de Ariano Suassuna

Em 29 de janeiro de 1961, o ‘Diário de Pernambuco’, do Recife, publicou o artigo “A propósito da ‘Farsa da Boa Preguiça’”, assinado por Gilberto Freyre. O texto surgiu num momento em que Ariano Suassuna já se afirmava como uma das vozes mais originais da dramaturgia brasileira, especialmente depois da repercussão alcançada por ‘Auto da Compadecida’. Gilberto Freyre não escreveu uma simples nota de ocasião sobre uma montagem teatral. Seu comentário procurou situar o autor paraibano dentro de uma tradição muito mais ampla da literatura de língua portuguesa, examinando sua linguagem, seu cristianismo, sua relação com a cultura popular e, sobretudo, a força renovadora de seu teatro. Lido décadas depois, o artigo possui especial importância porque registra a maneira pela qual um dos grandes intérpretes do Brasil percebeu, ainda no início da consolidação pública de Suassuna, a dimensão de sua dramaturgia.

Gilberto de Mello Freyre foi escritor, sociólogo, antropólogo, historiador, jornalista e ensaísta, construindo uma obra marcada pelo esforço de interpretação da formação brasileira. Essa amplitude intelectual ajuda a compreender o caráter do artigo dedicado a Suassuna. Freyre não observa ‘A Farsa da Boa Preguiça’ exclusivamente pelos critérios formais da crítica teatral. Seu olhar se desloca continuamente entre literatura, sociologia, religião, história cultural e formação nacional. Ao falar da peça, fala também da língua portuguesa, das raízes ibéricas do Brasil, do cristianismo popular, das transformações provocadas pela modernidade e da necessidade de reconhecer formas culturais capazes de resistir à uniformização do mundo contemporâneo. Ariano é colocado, portanto, dentro de uma reflexão maior sobre o Brasil.

Logo no primeiro parágrafo, Freyre estabelece o tom de sua apreciação. Para ele, com ‘A Farsa da Boa Preguiça’, Ariano “volta a ser o Ariano Suassuna do Auto da Compadecida”. A frase contém uma comparação e, simultaneamente, um elogio. ‘Auto da Compadecida‘ já funcionava como parâmetro de excelência, e a nova obra demonstrava, aos olhos do ensaísta pernambucano, que aquele resultado não fora episódico. Suassuna reaparecia com a mesma capacidade de renovação que o distinguira anteriormente. Gilberto Freyre vai além e o apresenta como o maior renovador, em língua portuguesa, de uma tradição teatral que considerava quase perdida: a de Gil Vicente.

Essa aproximação com Gil Vicente é o eixo inicial do artigo e deve ser entendida em toda a sua força. Gilberto Freyre não afirma que Ariano seja mero continuador do dramaturgo português. Ao contrário, utiliza deliberadamente a ideia de renovação. O teatro suassuniano se alimentaria de uma tradição antiga sem se transformar em imitação arqueológica. A permanência de determinadas formas, valores e procedimentos seria possível porque Ariano os submetia às exigências de outro tempo e de outro espaço. A tradição chegava ao Brasil e, ao ser recriada, adquiria novas cores, novas implicações sociais e novas possibilidades de futuro.

A percepção de Gilberto Freyre é particularmente significativa porque foi formulada em 1961, quando grande parte da trajetória posterior de Ariano ainda estava por ser construída. O ‘Movimento Armorial’ somente seria lançado anos depois, e o ‘Romance d’A Pedra do Reino’ ainda não havia sido publicado. Mesmo assim, o ensaísta identifica elementos que se tornariam centrais na compreensão futura do escritor: o diálogo entre herança ibérica e realidade brasileira, a valorização do popular, a religiosidade, a combinação de comicidade e crítica e a capacidade de fazer da tradição matéria de criação contemporânea. Seu artigo adquire, por isso, um valor quase prospectivo: percebe no jovem dramaturgo uma força cultural que o tempo confirmaria.

Um renovador da tradição de Gil Vicente

Para construir seu argumento, Gilberto Freyre começa por uma avaliação severa da tradição teatral em língua portuguesa. Segundo ele, a língua portuguesa possuiria uma tradição “débil” de bom teatro, dentro da qual Gil Vicente se destacava como exceção magnífica. A observação serve para dimensionar a importância atribuída a Suassuna. Se a continuidade vicentina havia sido rara ou insuficiente, o aparecimento, no Brasil, de um dramaturgo capaz de renovar aquela linhagem constituía, para Gilberto Freyre, acontecimento de grande relevância. Não se tratava apenas do surgimento de um bom autor teatral, mas da recuperação criadora de uma possibilidade histórica da própria língua.

Gilberto Freyre amplia a comparação ao mencionar outros nomes da tradição portuguesa, como Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Luís de Camões e Antônio Vieira. Seu raciocínio sugere que determinadas tendências vigorosas da cultura de língua portuguesa foram, ao longo do tempo, obscurecidas por tradições consideradas mais imperiais ou dominantes. Ao colocar Suassuna nessa discussão, o ensaísta o transforma em agente de uma espécie de reencontro. Ariano não voltaria ao passado por nostalgia, mas recuperaria uma vertente que poderia ter produzido outros desenvolvimentos e que, em sua obra, encontrava condições para reaparecer sob nova forma.

É nesse contexto que Gilberto Freyre formula uma de suas avaliações mais enfáticas: considera um dos grandes acontecimentos da literatura em língua portuguesa de seu tempo o aparecimento, no Brasil, não de um simples continuador, mas de um “vigoroso renovador” da tradição de Gil Vicente. A distinção entre continuar e renovar é fundamental. Continuar poderia significar repetir formas já estabelecidas; renovar implica absorvê-las, transformá-las e devolvê-las ao presente com outra vitalidade. Para Freyre, era justamente isso que Ariano realizava.

A autenticidade brasileira do teatro suassuniano não surgiria, portanto, da negação das raízes portuguesas. Gilberto Freyre rejeita implicitamente a ideia de que uma cultura somente possa afirmar sua originalidade rompendo com suas heranças. Em Ariano, ocorre o contrário: o teatro seria autenticamente brasileiro pelas raízes portuguesas e, ao mesmo tempo, autenticamente brasileiro pela atualidade, pela cor e pelas implicações sociais já “extraeuropeias”. A expressão é reveladora. A tradição recebida da Europa não permanece europeia quando atravessa a experiência histórica brasileira. Ela se modifica, adquire outras tonalidades e passa a responder a uma sociedade diferente.

Essa interpretação aproxima Freyre de uma questão que percorreu grande parte de sua própria obra: a formação do Brasil como resultado de encontros, adaptações, continuidades e transformações. No artigo, entretanto, essa problemática aparece concentrada na dramaturgia. Suassuna seria brasileiro não apesar de dialogar com uma tradição portuguesa, mas justamente porque consegue transformá-la em linguagem adequada ao Brasil. A herança deixa de ser dependência quando é recriada. A tradição deixa de ser peso quando se converte em instrumento de invenção.

Gilberto Freyre observa ainda que essa nova literatura teatral projetava-se sobre o futuro. A formulação impede qualquer interpretação de Ariano como autor voltado apenas para formas antigas. O passado, em sua dramaturgia, possuiria função dinâmica. Elementos medievais, vicentinos, religiosos e populares seriam reorganizados para falar a uma sociedade moderna. O que interessa a Freyre não é a idade das formas, mas sua capacidade de permanecer vivas. Uma tradição somente se justifica quando pode ser recriada e continuar produzindo significado.

A comparação com Gil Vicente, assim, não diminui a originalidade de Ariano. Pelo contrário, fornece a escala histórica utilizada por Freyre para exaltá-la. O dramaturgo paraibano é colocado numa linhagem, mas ocupa nela uma posição própria. Ele recebe, transforma e devolve. Seu teatro seria brasileiro pela experiência social que incorpora, português pelas raízes que reconhece e universal pela capacidade de fazer da tradição uma linguagem renovada. É essa síntese que impressiona Gilberto Freyre e que sustenta grande parte de seu entusiasmo.

Um teatro brasileiro pelas raízes, pela cor e pela experiência social

Ao afirmar que o teatro de Ariano é autenticamente brasileiro, Gilberto Freyre não se limita a uma declaração nacionalista. Ele procura explicar de onde viria essa autenticidade. Em primeiro lugar, das raízes portuguesas, assumidas sem constrangimento. Em seguida, da atualidade, da “cor” e das implicações sociais que já não pertencem à Europa. A brasilidade, portanto, é compreendida como resultado de uma transformação histórica. O material cultural recebido é submetido à experiência brasileira e adquire outra significação. Essa formulação é particularmente adequada ao teatro de Suassuna, no qual formas tradicionais se encontram com personagens, falares, situações e valores profundamente associados ao Nordeste.

Freyre chama atenção para o fato de que o Brasil não pode ser entendido apenas como prolongamento europeu. As raízes portuguesas permanecem importantes, mas a experiência americana introduz novas relações sociais, novas sensibilidades e novos conflitos. Quando Suassuna recupera formas antigas, ele não as reproduz intactas. Sua dramaturgia as coloca em contato com o homem rústico brasileiro, com a religiosidade popular, com o humor, com as desigualdades e com as maneiras locais de compreender o mundo. É nessa transformação que Gilberto Freyre encontra a autenticidade.

A palavra “cor”, empregada no artigo, merece atenção. Ela parece indicar mais do que aparência ou cenário. Pode ser lida como referência à tonalidade própria que a realidade brasileira imprime às formas herdadas. O teatro de Ariano possui uma atmosfera reconhecível, uma oralidade, uma comicidade e um repertório humano que não poderiam ser simplesmente transplantados para outro lugar sem alteração. Essa cor local, contudo, não é tratada por Gilberto Freyre como limitação provinciana. É justamente o que permite à tradição ganhar vida nova.

Também são relevantes as “implicações sociais” mencionadas pelo sociólogo. Farsa da Boa Preguiça não é analisada apenas como exercício de linguagem ou recuperação estilística. Gilberto Freyre percebe nela uma reflexão sobre modos de vida, valores e conflitos. O contraste entre o homem rústico e poético e a mulher sofisticada, por exemplo, é interpretado como oposição entre formas diferentes de existência. De um lado, a poesia, a simplicidade e uma relação menos utilitária com o tempo; de outro, a sofisticação associada a pretensões intelectuais e a um racionalismo que o ensaísta considera antipoético.

Essa leitura permite compreender por que Freyre se interessa tanto pela peça. O que está em jogo não é apenas o destino de personagens, mas uma disputa cultural. Farsa da Boa Preguiça questiona, em sua interpretação, a transformação do tempo em instrumento exclusivo de produtividade. O lazer, a poesia e a capacidade de contemplação aparecem como valores ameaçados por uma sociedade dominada pela lógica do rendimento. Nesse ponto, a dramaturgia de Ariano toca diretamente uma preocupação sociológica de Gilberto Freyre: o impacto da modernização sobre formas tradicionais de sociabilidade e sensibilidade.

O teatro de Suassuna aparece, assim, como espaço onde questões brasileiras podem ser discutidas sem abandono da fantasia, do humor ou da tradição. A crítica social não exige uma linguagem fria ou documental. Pode surgir da farsa, do riso, do exagero e do contraste entre personagens. Gilberto Freyre reconhece precisamente essa capacidade de transformar questões sociais em matéria poética. A força de Ariano estaria em não sacrificar a arte ao argumento. Mesmo quando discute valores, seu teatro permanece teatro.

Essa articulação entre brasilidade e invenção ajuda a explicar o alcance da avaliação final de Gilberto Freyre, quando chama a peça de nova e vigorosa afirmação de um talento caracteristicamente brasileiro. O adjetivo “brasileiro” não é usado como simples identificação de nacionalidade. Refere-se a uma maneira de combinar heranças, experiências e formas de expressão. Ariano seria caracteristicamente brasileiro porque consegue fazer do encontro entre tempos e culturas uma linguagem própria.

O cristianismo lírico e popular no olhar de Gilberto Freyre

Um dos trechos mais extensos e reveladores do artigo é dedicado ao cristianismo presente no teatro de Ariano Suassuna. Gilberto Freyre afirma que sua dramaturgia é autenticamente brasileira também pelo que possui de “liricamente cristão”. A formulação afasta imediatamente uma leitura meramente doutrinária. O que interessa ao ensaísta é um cristianismo incorporado à poesia, à sensibilidade e às formas populares de vida. Não se trata simplesmente de identificar referências religiosas na peça, mas de reconhecer uma visão de mundo cristã transformada em matéria artística.

Gilberto Freyre conduz a discussão para o campo sociológico e afirma que não se poderia falar em civilização brasileira separando-a da civilização cristã. Em seguida, faz uma distinção cuidadosa. Ele rejeita o uso retórico de uma suposta “civilização cristã” como instrumento de defesa de interesses econômicos ou como palavra de ordem lançada contra o comunismo e as chamadas ideologias exóticas. O cristianismo que identifica como relevante é outro: uma civilização “liricamente cristã”, presente naquilo que considera mais castiço, virtuoso e profundo no caráter e no comportamento do povo e do homem rústico brasileiro.

Essa distinção é indispensável para entender seu elogio a Ariano. Gilberto Freyre não celebra um teatro de propaganda religiosa. Ao contrário, valoriza uma religiosidade que se manifesta na poesia, na ternura, na sátira e na experiência cotidiana. O cristianismo popular não aparece como sistema abstrato, mas como cultura vivida. Essa percepção se aproxima muito do universo suassuniano, no qual santos, pecadores, pobres, poderosos, astutos e ingênuos podem coexistir dentro de uma visão religiosa profundamente marcada pela misericórdia, pelo julgamento moral e pelo humor.

Gilberto Freyre chega a dizer que a literatura teatral de Ariano possui algo de “saudavelmente medieval” em seu modo de ser cristã. A palavra “medieval” poderia, em outro contexto, sugerir atraso ou arcaísmo. O ensaísta antecipa essa possível objeção e afirma que esse medievalismo não é arcaico, histórico ou literário no sentido de mera reprodução. Certos valores da Europa medieval, segundo ele, eram específicos daquele tempo e perderam validade; outros, porém, tornaram-se polivalentes e poderiam permanecer significativos em diferentes espaços e épocas.

Entre esses valores, Gilberto Freyre menciona inclusive a tradição franciscana. Seu argumento é que a modernidade não exige o abandono de tudo aquilo que veio de períodos anteriores. Uma cultura moderna pode selecionar, transformar e conservar valores que continuem humanamente fecundos. Ariano, nesse sentido, apareceria como dramaturgo capaz de atualizar uma sensibilidade cristã antiga sem transformá-la em peça de museu. O passado religioso se torna linguagem contemporânea porque entra em contato com o cristianismo popular brasileiro.

Gilberto Freyre descreve esse cristianismo como impregnado de poesia dinâmica, ternura e sátira. A combinação é importante. A ternura impede que a religião se reduza a julgamento severo; a sátira impede que se transforme em sentimentalismo passivo. Há afeto, mas também crítica. Há transcendência, mas também riso. Mais uma vez, o ensaísta percebe em Ariano uma estrutura de contrastes que se tornaria característica de sua dramaturgia.

O artigo estabelece ainda uma comparação entre tradições cristãs, afirmando que parte do protestantismo teria perdido em poesia aquilo que ganhara em lógica, enquanto o catolicismo conservaria uma capacidade poética particularmente apta a responder aos vazios da sociedade moderna. Trata-se de uma interpretação própria de Gilberto Freyre, vinculada a seu modo de pensar cultura e religião, e não de uma afirmação neutra ou consensual. No contexto do artigo, porém, ela desempenha função clara: explicar por que a religiosidade de Suassuna lhe parece moderna justamente quando conserva elementos antigos.

O Ariano visto por Gilberto Freyre é, portanto, um dramaturgo cristão sem ser simplesmente catequético; tradicional sem ser arcaico; popular sem ser simplório. Sua religiosidade participa da construção estética e da interpretação do homem. A fé, no teatro suassuniano, pode conviver com a sátira e com o riso porque pertence a uma experiência cultural ampla. É essa capacidade de transformar religião em poesia que o ensaísta procura destacar.

‘A Farsa da Boa Preguiça’ como crítica ao “time is money”

O ponto em que o artigo se torna mais diretamente ligado à modernidade aparece quando Gilberto Freyre interpreta ‘Farsa da Boa Preguiça’ como obra “atualíssima”. A atualidade da peça, para ele, reside sobretudo na defesa do bom lazer e na censura ao ativismo exagerado. O ensaísta utiliza a expressão inglesa “time is money” para representar uma mentalidade que mede o tempo exclusivamente por sua produtividade econômica. Contra essa lógica, a peça de Ariano ofereceria um elogio do lazer poético.

É importante perceber que Gilberto Freyre não está defendendo simplesmente a ociosidade. Sua leitura distingue a preguiça vulgar de uma experiência de tempo capaz de acolher poesia, convivência, festa e contemplação. O “bom lazer” seria uma dimensão humana ameaçada por um mundo cada vez mais organizado pela eficiência, pela pressa e pela obrigação de produzir. A farsa, nesse sentido, torna-se crítica cultural. O riso revela um conflito entre maneiras distintas de organizar a existência.

Gilberto Freyre considera particularmente grave que o ativismo transforme até as horas de ágape em negação do lazer. A palavra remete à convivência, ao encontro e à fraternidade. Quando mesmo esses momentos passam a ser submetidos à lógica da produtividade, perde-se uma dimensão essencial da vida. A peça de Ariano aparece, então, como defesa de um tempo não mercantilizado, no qual a pessoa pode existir sem precisar justificar cada minuto por sua utilidade econômica.

Essa interpretação revela como Gilberto Freyre consegue extrair da dramaturgia de Suassuna uma questão sociológica de grande amplitude. Em 1961, ele já percebia a expansão de formas de vida associadas à racionalização, à automação e à produtividade. Seu artigo menciona os vazios que a automação estaria abrindo no cotidiano do homem moderno “supercivilizado”. A expressão contém ironia: o avanço técnico não significaria necessariamente enriquecimento humano. Uma sociedade poderia tornar-se mais eficiente e, simultaneamente, mais pobre em poesia, convivência e sentido.

Ariano surge, nesse quadro, como autor de resistência cultural. Sua farsa não propõe um tratado sociológico contra a modernização. Utiliza personagens, humor, poesia e situações dramáticas para questionar valores. Essa diferença é essencial. Gilberto Freyre admira justamente o fato de a crítica permanecer incorporada à forma artística. A defesa do lazer não é apresentada como programa político, mas como experiência poética que o público pode reconhecer através da representação.

A oposição entre o homem rústico e poético e a mulher sofisticada assume, nessa leitura, função simbólica. Gilberto Freyre vê no primeiro uma relação mais orgânica com a poesia e, na segunda, uma intelectualidade excessivamente lógica e antipoética. Essa interpretação reflete também as preferências culturais do próprio ensaísta, que frequentemente desconfiava de modernizações incapazes de preservar dimensões tradicionais da vida. O artigo não esconde esse posicionamento. Ao elogiar Ariano, Freyre encontra na peça argumentos para uma crítica que também é sua.

O interesse histórico do texto aumenta quando se observa que a oposição entre tempo produtivo e tempo humano permanece atual. A expressão “time is money”, utilizada por Gilberto Freyre há mais de seis décadas, continua simbolizando uma sociedade que frequentemente mede pessoas e atividades por desempenho. A leitura que ele fez de ‘Farsa da Boa Preguiça’ ajuda a explicar por que considerava a obra “atualíssima”: ela não estava presa ao episódio teatral de 1961, mas discutia uma transformação cultural de longa duração.

Nesse ponto, o Ariano visto por Gilberto Freyre é também um pensador por meio do teatro. Sua dramaturgia produz ideias sem abandonar a comicidade. Questiona a modernidade sem recorrer a discurso acadêmico. Defende a poesia por meio da própria poesia. E transforma a preguiça, palavra geralmente associada a defeito moral, em provocação capaz de revelar os excessos de uma civilização obcecada pelo trabalho e pela eficiência.

Hermilo Borba, Francisco Brennand e a realização cênica da farsa

Embora o centro do artigo seja Ariano Suassuna, Gilberto Freyre não ignora a dimensão coletiva do teatro. Ao comentar a apresentação de Farsa da Boa Preguiça, dirige elogios a Hermilo Borba, responsável pela direção, e a Francisco Brennand, ligado à criação do ambiente da representação. Essa atenção é importante porque demonstra que o ensaísta não analisa apenas o texto dramático. Ele considera também a maneira pela qual a obra chega ao palco e ganha corpo diante do público.

A apresentação dirigida por Hermilo Borba é classificada como boa. Gilberto Freyre acrescenta, com alguma ironia e modéstia, que fala como leigo quando avalia a interpretação dos personagens principais. Mesmo assim, registra sua impressão favorável. O homem rústico e poético e a mulher sofisticada constituem, para ele, os polos fundamentais da representação. O contraste entre ambos torna visível a disputa de valores que identificara na peça: poesia contra racionalismo excessivo, simplicidade contra sofisticação vazia, lazer contra ativismo.

Ao mencionar Francisco Brennand, Gilberto Freyre se mostra ainda mais entusiasmado. Considera esplendidamente poético o ambiente criado para a representação. O elogio aproxima diferentes linguagens artísticas. A poesia de Ariano não permaneceria restrita às palavras; encontraria correspondência visual na concepção do espaço cênico. Essa integração reforçaria a atmosfera da farsa e demonstraria como o teatro pode reunir literatura, interpretação, direção e artes plásticas numa experiência única.

A presença de Hermilo Borba e Francisco Brennand no comentário também situa Ariano dentro de um ambiente cultural nordestino particularmente fértil. Gilberto Freyre percebe a peça não como produção isolada de um indivíduo, mas como acontecimento capaz de mobilizar artistas e intelectuais. O teatro surge como espaço de colaboração. A originalidade de Suassuna não diminui a importância daqueles que transformam seu texto em espetáculo; pelo contrário, a qualidade da montagem permite que sua dramaturgia revele plenamente suas possibilidades.

Gilberto Freyre não deixa, contudo, de registrar restrições. Considera certos trajes um tanto inexpressivos e julga algumas passagens do terceiro ato excessivamente retóricas ou apologéticas. Ao introduzir essas ressalvas, inclusive pedindo licença aos entendidos e perdão ao próprio Suassuna, demonstra que seu entusiasmo não é inteiramente acrítico. O artigo é elogioso, mas não é uma celebração sem reservas. O reconhecimento da grandeza da peça convive com a liberdade de apontar aspectos que lhe pareceram menos realizados.

Essas pequenas objeções tornam ainda mais expressivo o julgamento final. Depois de registrar o que considera fragilidades da montagem e de algumas passagens, Gilberto Freyre conclui que, em conjunto, Farsa da Boa Preguiça é nova e vigorosa afirmação do talento de Ariano. As reservas não alteram o essencial. Ao contrário, dão credibilidade ao elogio, porque demonstram que ele resulta de uma apreciação que distingue diferentes aspectos do espetáculo.

O olhar sobre a montagem também revela uma concepção ampla de teatro. Para Gilberto Freyre, uma obra dramática não existe plenamente apenas no papel. A direção, os intérpretes, o ambiente visual e os figurinos interferem na experiência do público. Ao elogiar Hermilo Borba e Brennand, ele reconhece a rede artística que permite à escrita de Ariano adquirir presença material. O dramaturgo continua no centro, mas seu texto encontra parceiros capazes de ampliar sua força.

Um talento “caracteristicamente brasileiro”

A conclusão de Gilberto Freyre é uma das passagens mais contundentes do artigo. Para ele, ‘A Farsa da Boa Preguiça’ constituía “nova e vigorosa afirmação” do talento mais caracteristicamente brasileiro que já surgira na literatura de teatro em língua portuguesa. O superlativo revela a dimensão de sua admiração. Não se trata apenas de reconhecer Ariano como bom dramaturgo ou autor promissor. Gilberto Freyre o coloca numa posição excepcional dentro de toda uma tradição linguística e teatral.

A expressão “caracteristicamente brasileiro” reúne argumentos desenvolvidos ao longo do texto. Ariano seria brasileiro pelas raízes portuguesas recriadas, pela atualidade de sua linguagem, pelas implicações sociais extra-europeias, pelo cristianismo popular, pela presença do homem rústico e pela capacidade de transformar valores tradicionais em crítica da modernidade. Sua brasilidade não depende de símbolos superficiais. Resulta de uma forma particular de organizar experiências históricas e culturais.

Também é importante observar que Freyre não opõe brasilidade e universalidade. Ao recuperar Gil Vicente e dialogar com valores medievais, Ariano se insere numa história cultural que ultrapassa o Brasil. Contudo, sua inserção não é subalterna. Ele participa dessa tradição a partir de um lugar próprio, modificando-a. O teatro brasileiro deixa de aparecer como periferia de um modelo europeu e passa a ser espaço de renovação de uma tradição de língua portuguesa.

Essa inversão possui grande significado. Se Gil Vicente representa uma das origens mais vigorosas do teatro português, é no Brasil que Freyre identifica seu grande renovador moderno. A continuidade cultural não segue apenas do centro europeu para a antiga colônia. O movimento se torna circular: uma tradição portuguesa atravessa o Atlântico, transforma-se na experiência brasileira e reaparece renovada. Ariano ocupa o ponto em que herança e invenção se encontram.

O julgamento de Gilberto Freyre ajuda ainda a compreender a recepção precoce de Suassuna entre intelectuais de grande projeção. Em 1961, o dramaturgo já era percebido como autor capaz de representar algo novo sem romper destrutivamente com o passado. Essa combinação era particularmente atraente para Gilberto Freyre, cuja própria obra intelectual valorizava continuidades culturais, mestiçagens, adaptações e sobrevivências. Não surpreende que tenha encontrado em Ariano uma expressão artística compatível com muitas de suas preocupações.

Entretanto, seria redutor transformar o artigo apenas num espelho das ideias de Gilberto Freyre. O entusiasmo nasce também de qualidades concretas que ele identifica na peça: vigor dramático, poesia, humor, capacidade de atualização, personagens simbolicamente fortes e um ambiente cênico que reforçava a proposta do texto. A afinidade intelectual ajuda a explicar o olhar, mas não substitui a obra que o provoca.

A passagem do tempo dá ao julgamento um interesse adicional. Muitas das características destacadas por Freyre permaneceriam associadas a Ariano nas décadas seguintes: a defesa da cultura popular, a aproximação entre erudito e popular, a valorização das matrizes ibéricas, a religiosidade, a crítica a determinados valores modernos e a construção de uma estética profundamente vinculada ao Nordeste sem se limitar a ele. O artigo de 1961 registra essas linhas quando ainda estavam em pleno desenvolvimento.

Por isso, “A propósito da ‘Farsa da Boa Preguiça’” pode ser lido como documento da recepção inicial de um autor que se tornaria central na cultura brasileira. Gilberto Freyre reconhece em Ariano não apenas o sucesso do presente, mas uma potência de continuidade. O dramaturgo lhe parece capaz de produzir futuro a partir da tradição. Talvez seja essa a ideia mais importante de todo o artigo.

Ariano entre tradição e futuro no testemunho de Gilberto Freyre

O retrato de Ariano Suassuna construído por Gilberto Freyre é marcado por uma tensão produtiva entre passado e futuro. O dramaturgo aparece ligado a Gil Vicente, ao cristianismo medieval, às raízes portuguesas e à cultura popular; simultaneamente, é apresentado como autor atualíssimo, capaz de questionar a automação, o produtivismo e a transformação do tempo em dinheiro. Não há contradição nessa combinação. Para Freyre, a força de Ariano está justamente em demonstrar que tradição e modernidade não precisam ser inimigas quando o passado é recriado em vez de simplesmente repetido.

Essa leitura explica por que o ensaísta insiste na palavra “renovador”. Ariano não seria restaurador de um teatro antigo. Restaurar poderia significar devolver uma forma ao estado anterior. Renovar significa dar-lhe nova vida. A diferença é decisiva. Gil Vicente funciona como ancestral, não como molde rígido. O cristianismo medieval oferece valores, não um programa de reconstituição histórica. As raízes portuguesas fornecem matéria, mas a experiência brasileira modifica seu significado. O resultado é uma dramaturgia que pertence ao presente porque sabe transformar aquilo que recebeu.

Também chama atenção a maneira pela qual Freyre encontra no homem rústico uma reserva de poesia e humanidade. Sua leitura pode ser discutida a partir de perspectivas posteriores, sobretudo porque existe nela certa idealização do popular e uma oposição forte entre rusticidade poética e sofisticação racionalista. Entretanto, dentro do artigo, essa oposição cumpre papel central: mostrar que o avanço material não garante enriquecimento espiritual. O homem considerado moderno pode ser mais pobre em poesia do que aquele que conserva formas tradicionais de convivência e sensibilidade.

Ariano aparece, assim, como mediador entre mundos. Seu teatro põe em contato o medieval e o contemporâneo, o português e o brasileiro, o cristão e o satírico, o rústico e o elaborado, a tradição e a crítica social. Freyre não utiliza ainda o vocabulário que posteriormente seria associado ao projeto armorial, mas percebe uma lógica de composição que ajuda a compreender por que a obra de Suassuna desenvolveria tão forte identidade cultural. A mistura não produz indefinição; produz singularidade.

O artigo também revela a capacidade de Freyre de perceber a dimensão intelectual de uma farsa. A comicidade não é tratada como gênero menor. Por trás do riso, ele encontra uma discussão sobre civilização, religião, trabalho, tempo, cultura e identidade. Essa valorização é importante porque reconhece em Ariano um dramaturgo que pensa através da cena. A peça diverte, mas seu humor carrega uma interpretação do mundo.

Ao mesmo tempo, Freyre preserva a dimensão poética como critério fundamental. Sua crítica ao “time is money”, à lógica estéril e ao ativismo antipoético demonstra que o valor da peça não está somente nas ideias que apresenta, mas na defesa de uma forma de sensibilidade. A poesia aparece como necessidade humana. O lazer, a ternura, a sátira e a convivência são dimensões de uma vida que não pode ser inteiramente submetida à produtividade. Nesse sentido, o elogio a Ariano também é uma defesa da própria arte.

Mais de seis décadas depois da publicação do artigo, impressiona a segurança com que Gilberto Freyre reconheceu a importância de Suassuna. O dramaturgo ainda desenvolveria grande parte de sua obra, ampliaria sua atuação como professor e intelectual e se transformaria em referência nacional. Em janeiro de 1961, porém, Freyre já via nele um autor excepcional. Seu testemunho conserva o instante em que uma voz consagrada da interpretação brasileira identifica, em outra geração, uma criação capaz de renovar a tradição.

O Ariano Suassuna visto por Gilberto Freyre é, portanto, muito mais do que o autor de uma peça bem-sucedida. É um renovador de Gil Vicente em terras brasileiras; um dramaturgo que transforma raízes portuguesas em linguagem nacional; um artista liricamente cristão; um defensor poético do lazer contra a tirania do tempo convertido em dinheiro; um criador capaz de reunir tradição, crítica social, humor e religiosidade; e, finalmente, um talento que Freyre considerava singular dentro do teatro de língua portuguesa.

A força histórica de “A propósito da ‘Farsa da Boa Preguiça’” reside justamente nisso. O artigo não olha para Ariano depois de sua consagração definitiva, quando seria fácil reconhecer retrospectivamente sua importância. Olha para um escritor ainda em plena construção e percebe nele sinais de permanência. Gilberto Freyre identifica uma dramaturgia que recebe o passado sem se aprisionar nele e que enfrenta o presente sem se render às suas modas. Entre Gil Vicente e o Brasil moderno, entre a poesia popular e a reflexão sobre a civilização, encontra um Ariano Suassuna que já parecia destinado a permanecer.

Se o tempo confirmou a posição de Ariano entre os grandes nomes da dramaturgia brasileira, o texto de Gilberto Freyre permanece como documento privilegiado dessa percepção precoce. Nele, a admiração não nasce de uma homenagem tardia, mas do impacto provocado por uma obra viva, recém-chegada ao palco e capaz de mobilizar questões profundas sobre a cultura brasileira. É esse caráter de testemunho contemporâneo que torna o artigo de 1961 tão valioso: nele podemos observar Ariano sendo reconhecido, ainda no calor de sua criação, por um dos mais influentes intérpretes do Brasil.

José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário