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Ariano Suassuna visto por Renato Carneiro Campos – Da série “Ariano Suassuna visto por…” (de José Ozildo)

Um olhar nascido da admiração e confessadamente da inveja

Publicado no Diário de Pernambuco [10-10-1971], ‘O sertão coroado’ é um daqueles textos em que a crítica literária abandona a distância convencional e assume a forma de uma confissão. Renato Carneiro Campos começa declarando que a “inveja recifense” às vezes o contaminava. Não tenta esconder a sensação nem revesti-la de linguagem acadêmica. Ao contrário, transforma-a em recurso narrativo e, com humor, apresenta a inveja como sentimento capaz de aproximar-se da admiração, mas também de descambar para o despeito e para aquilo que chama de “autofagia intelectual”. A abertura é provocativa e prepara o leitor para um texto no qual a avaliação de Ariano Suassuna nasce de uma disputa íntima entre resistência e reconhecimento.

A escolha dessa entrada não é casual. Renato Carneiro Campos conhecia profundamente o universo cultural nordestino. Sociólogo, escritor, professor de Literatura, cronista do Diário de Pernambuco e pesquisador do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, dedicou parte importante de sua produção ao estudo da cultura popular, dos cantadores e repentistas e das formas de pensamento existentes no Nordeste. Livros como ‘Ideologia dos poetas populares do Nordeste’ e ‘Arte, Sociedade e Região’ revelam uma preocupação permanente com a relação entre criação artística, sociedade e espaço regional. Essa formação torna ainda mais significativa sua reação diante de ‘A Pedra do Reino’: ele não observa o sertão suassuniano como leitor alheio à matéria estudada, mas como intelectual que também buscava compreender os mecanismos simbólicos da cultura nordestina.

Sua confissão de inveja é construída com ironia e erudição. Para demonstrar que nem os grandes escapam desse sentimento, Renato Campos convoca exemplos da história literária: Tolstoi e Shakespeare, Hemingway em relação a Fitzgerald e Faulkner, Astúrias e Gabriel García Márquez, além de episódios brasileiros envolvendo Joaquim Nabuco e José de Alencar, Lima Barreto e Machado de Assis, Sílvio Romero e José Veríssimo. A enumeração funciona como autodefesa bem-humorada. Se escritores consagrados conheceram a inveja, ele também poderia confessá-la sem perder a dignidade. Chega a lembrar de São Pedro e Cristo, ampliando a brincadeira até o território religioso.

No entanto, o verdadeiro objeto dessa inveja é rapidamente revelado: Ariano Suassuna fizera com o Sertão aquilo que Renato Campos gostaria de fazer com sua Zona da Mata pernambucana. Nessa frase está a chave de todo o artigo. A admiração não nasce apenas do sucesso editorial do romance, mas da capacidade de um escritor transformar uma região em universo literário. Renato Campos percebe que Ariano não se limitou a ambientar uma narrativa no sertão: ele construiu uma representação suficientemente poderosa para fazer daquele espaço uma realidade autônoma dentro da literatura. É isso que provoca a inveja do cronista: o reconhecimento de que outro escritor alcançou artisticamente algo que ele próprio desejava realizar.

O tom confessional também humaniza a crítica. Em vez de apresentar sua conclusão pronta, Renato mostra o percurso que o levou a ela. Primeiro sente inveja, depois procura argumentos para diminuir a obra, em seguida relê o romance e, finalmente, rende-se à sua força. A avaliação positiva adquire maior peso justamente porque nasce de uma resistência vencida. Não estamos diante de um admirador disposto desde o início a elogiar Ariano, mas de um leitor que tentou contestá-lo e terminou convencido pela releitura. “O sertão coroado” é, nesse sentido, a narrativa de uma conversão crítica.

Renato Carneiro Campos: cultura popular, sociologia e literatura

A compreensão do artigo exige alguma atenção à trajetória de Renato Carneiro Campos. Morto em 31 de janeiro de 1977, aos 46 anos, ele reuniu atividades que raramente permaneciam separadas em sua escrita: sociologia, literatura, jornalismo, pesquisa cultural e docência. Seu interesse pelos cantadores e repentistas populares do Nordeste levou-o a examinar mentalidades, tipos humanos e formas de criação que circulavam fora dos espaços tradicionais da cultura letrada. Entre essas figuras estava o chamado “amarelinho” da Zona da Mata, tipo associado à astúcia e à sobrevivência, próximo, em determinados aspectos, do herói picaresco que também encontra ressonância na prosa de Ariano Suassuna.

Essa proximidade temática ajuda a explicar por que Renato Campos podia perceber em ’A Pedra do Reino‘ elementos que escapariam a um leitor menos familiarizado com a cultura popular. Seu olhar sociológico não se expressa por terminologia excessivamente técnica. Ao contrário, uma das marcas atribuídas à sua escrita era a capacidade de tratar problemas sociais e culturais sem estruturalismos ou vocabulário desnecessariamente difícil. O cronista e o sociólogo conviviam no mesmo texto. Em “O sertão coroado”, isso aparece com nitidez: conceitos sobre região, identidade, cultura e representação surgem dentro de uma prosa leve, irônica e pessoal.

Renato Campos escreveu ainda sobre Carlos Pena Filho e sobre Gilberto Freyre, além de abordar problemas sociais nordestinos. Essa variedade mostra um intelectual interessado tanto pela criação individual quanto pelos processos culturais que a cercam. Ao examinar Ariano, portanto, ele se encontra diante de um autor cuja obra também dissolve fronteiras entre cultura erudita e popular, história e invenção, realidade social e imaginação. Há entre os dois um território comum: o esforço de compreender o Nordeste sem reduzi-lo a uma descrição exterior.

É importante observar que Renato Campos não abandona a perspectiva regional. Pelo contrário, seu artigo nasce de uma comparação explícita entre Zona da Mata e Sertão, Pernambuco e Paraíba, Recife e o interior. Contudo, essa perspectiva não termina num provincianismo. O próprio texto registra a superação de um “bairrismo estreito”. Ao reconhecer a força de Ariano, Renato Campos percebe que uma obra profundamente ligada a uma região pode ultrapassar suas fronteiras e ingressar naquilo que chama de “ficção universal”. A passagem do regional ao universal torna-se, assim, uma das ideias centrais de sua interpretação.

Essa conclusão possui peso especial quando vem de um pesquisador da cultura regional. Renato Campos não precisa negar o local para alcançar o universal. Sua leitura sugere exatamente o contrário: é pela intensidade com que Ariano recria o sertão que consegue torná-lo literariamente comunicável para além dele. A região não é obstáculo à grande literatura; pode ser sua matéria fundamental, desde que transformada por uma imaginação capaz de produzir símbolos, personagens e conflitos que ultrapassem a mera documentação.

A vontade de contestar Ariano e o “bairrismo estreito”

Depois de confessar a inveja, Renato Carneiro Campos enumera os argumentos que esteve tentado a utilizar contra ‘A Pedra do Reino’. A passagem é uma das mais reveladoras do artigo porque reproduz, quase como exercício de autocrítica, uma possível leitura negativa da obra. Ele poderia afirmar que o sertão representado por Ariano jamais existira daquela maneira. Poderia acusar suas páginas de artificialismo, neutralidade e alienação. Poderia lembrar que a realidade sertaneja fora marcada por fome, pobreza, retiradas, cangaceiros e pistoleiros. Poderia ainda contrapor à exuberância de Dinis Quaderna o silêncio sofrido de Fabiano, de Vidas Secas.

Ao formular essas objeções, Renato Campos põe frente a frente duas maneiras de representar o sertão. De um lado, a tradição realista e social associada a Graciliano Ramos, cuja personagem Fabiano aparece “orgulhoso e de cabeça baixa”, marcada pelo sofrimento e pela contenção. Do outro, o mundo verbalmente exuberante de Dinis Quaderna, personagem loquaz, imaginativo e capaz de reorganizar a realidade por meio da palavra. Renato Campos chega a perguntar implicitamente qual deles seria intérprete mais legítimo de sua gente. A força de sua posterior mudança de posição está justamente em perceber que a existência de uma representação não invalida a outra.

Também entram nessa resistência Euclides da Cunha e José de Alencar, escritores admirados por Ariano. Renato Campos observa que não eram “homens de gargalhadas”, como se a gravidade desses autores pudesse ser usada contra a tonalidade cômica e festiva do romance suassuniano. Mais uma vez, porém, o argumento é apresentado para ser posteriormente superado. O crítico começa desconfiando do riso porque associa o sertão à dor histórica. Depois compreende que o riso de Ariano não elimina essa dor. Pelo contrário, pode escondê-la, transfigurá-la e torná-la ainda mais profunda.

O ponto máximo de sua resistência surge quando confessa ter começado um artigo em que chamaria Ariano de “traidor de Pernambuco”. O motivo era quase caricaturalmente regionalista: criado em Pernambuco, formado intelectualmente no Recife e já beneficiado pela projeção alcançada nesse ambiente, Suassuna continuaria pensando e escrevendo sobre a Paraíba. Renato Campos chega a imaginar que, se o escritor se sentia tão paraibano, poderia residir no lugar onde nascera. Cita outros autores vinculados a seus estados e deixa transparecer o velho jogo de pertencimentos, que tantas vezes marcou a vida cultural nordestina.

A grandeza do texto está em reconhecer o equívoco. Renato Campos percebe que enveredara por um “bairrismo estreito” e que esquecera a tradicional hospitalidade pernambucana, além do papel do Recife como capital cultural de toda a região nordestina. A autocrítica desmonta a fronteira que ele próprio tentara erguer. Ariano podia ser profundamente paraibano e, ao mesmo tempo, ter sua formação vinculada ao Recife. Podia escrever sobre o sertão paraibano sem deixar de participar da cultura pernambucana e nordestina. A identidade regional aparece como circulação, e não como confinamento.

Esse trecho possui particular interesse para compreender a posição cultural de Ariano. Sua trajetória efetivamente atravessa fronteiras estaduais e simbólicas. O escritor nasce na Paraíba, forma-se e desenvolve grande parte da vida intelectual em Pernambuco e transforma elementos sertanejos em matéria de uma obra que alcança o país. Renato Campos inicialmente reage a essa circulação com ciúme regional. Depois, percebe que a própria riqueza cultural do Recife consiste em acolher e projetar experiências diversas. A “traição” desaparece quando o bairrismo cede lugar a uma concepção mais ampla de Nordeste.

A releitura que dissipou a “névoa da inveja”

O ponto de inflexão de “O sertão coroado” ocorre com uma frase simples: relendo o romance de Ariano Suassuna, “graças a Deus, a névoa da inveja se dissipou”. O verbo reler é essencial. Renato não muda de opinião por influência externa nem por reverência à fama do autor. É a volta ao próprio livro que desmonta suas resistências. A literatura vence o preconceito do leitor. Aquilo que parecia artificial ou excessivamente alegre começa a revelar outra estrutura quando observado com maior atenção.

A primeira descoberta é que a alegria de ‘A Pedra do Reino’ não elimina a tristeza. Renato Campos percebe “manchas de tristeza” que surgem no livro como sombras no meio de muita claridade e muito sol. A imagem é de grande beleza e oferece uma chave importante para compreender sua leitura. O romance pode parecer luminoso, festivo, teatral e cômico, mas sua luminosidade não é uniforme. Há sombras que interrompem o brilho e indicam dores mais profundas. O riso deixa de ser prova de alienação e passa a funcionar como forma de convívio com o sofrimento.

Ariano teria levantado um “grande castelo sertanejo” usando como alicerces a própria alma. A metáfora atribui ao romance uma dimensão simultaneamente arquitetônica e íntima. O castelo é grande, fantástico, ornamentado. Contudo, sua sustentação não é exterior. Vem da experiência interior do romancista, de sua memória, de suas referências e de sua relação afetiva com o sertão. Renato Campos começa a compreender que a aparente artificialidade é, na verdade, construção artística deliberada. O sertão de Ariano não precisa reproduzir fotograficamente o sertão histórico para possuir verdade literária.

Nesse processo, o romancista é aproximado dos antigos contadores de histórias. Renato Carneiro Campos afirma que todo bom romancista possui alguma coisa desses narradores e vê Ariano à maneira de um trovador: alguém que canta para alegrar e agradar, deixando para os leitores capazes de perceber as entrelinhas as “dores entocadas”. Essa expressão é central. A dor não está ausente: está escondida. A superfície festiva funciona como uma camada sob a qual se acumulam sofrimento, perda, frustração e memória.

A leitura de Renato Campos desloca-se, portanto, da acusação de alienação para o reconhecimento da complexidade. O que antes lhe parecia fuga da realidade passa a ser percebido como forma de representá-la por caminhos não realistas. Ariano não precisa repetir ‘Vidas Secas’ para falar do sertão. Pode fazê-lo através da farsa, do sonho, da loucura, do exagero e da invenção. A literatura oferece mais de uma verdade e mais de uma linguagem para alcançá-la.

Esse reconhecimento é particularmente significativo vindo de um sociólogo. Renato Campos poderia exigir do romance uma correspondência documental com os problemas sociais que estudava. Em vez disso, aceita a autonomia da criação literária e compreende que uma obra pode revelar uma sociedade sem reproduzi-la literalmente. A imaginação não é negação do real. Ela pode ser instrumento de conhecimento. A partir daí, ‘A Pedra do Reino’ deixa de ser, para ele, um sertão falsificado e passa a ser um sertão coroado.

O riso que esconde dores: de Dostoievski e Cervantes a Ariano

Para explicar a descoberta de uma tristeza escondida sob a alegria, Renato Carneiro Campos recorre a uma comparação literária de grande alcance. Ele pergunta quem poderia considerar Dom Quixote simplesmente um livro alegre. Em seguida, contrapõe Dostoievski e Cervantes. O primeiro faria questão de ser triste, mergulhando a pena em “sangue de chagas dolorosas”. O segundo, dando a impressão de escrever um romance alegre e engraçadíssimo, teria produzido, segundo Renato Campos, um dos livros mais tristes que conhecia. A oposição ajuda a compreender Ariano.

A tristeza pode apresentar-se diretamente, como em determinada tradição do romance psicológico e dramático, ou esconder-se dentro da comicidade. Renato Campos passa a situar ‘A Pedra do Reino’ nessa segunda possibilidade. O riso não é necessariamente sinal de superficialidade. Pode tornar a dor mais aguda justamente porque a encobre. Quando a alegria se quebra, a sombra aparece com maior intensidade. É por isso que o crítico fala em “falsa alegria” e no riso escapando pelas vertentes do sonho, da demência e da loucura.

A loucura de grandeza torna-se uma dessas formas de sofrimento. Dinis Quaderna constrói para si uma identidade grandiosa, régia e imaginativa, reorganizando o mundo sertanejo por meio de genealogias, símbolos e fantasias. Renato Campos percebe nessa expansão não apenas comicidade, mas necessidade humana. A grandeza imaginada pode funcionar como resposta a uma realidade limitada, dolorosa ou humilhante. O sonho permite suportar aquilo que a vida concreta não oferece.

A aproximação com Cervantes é particularmente fecunda porque Quaderna, assim como personagens da tradição picaresca e quixotesca, vive numa região instável entre realidade e imaginação. Renato Campos não precisa desenvolver teoricamente essa relação: basta-lhe reconhecer que a comicidade de Ariano pertence a uma linhagem em que o riso pode carregar profunda melancolia. Ao citar a tristeza da loucura de Sancho Pança e a lucidez do Cavaleiro nas últimas páginas, recorda que a inversão entre loucura e lucidez constitui uma das forças mais duradouras da literatura.

Esse argumento também responde às objeções que ele próprio levantara anteriormente. Se o sertão histórico conheceu fome, violência e sofrimento, isso não obriga o romancista a representá-lo exclusivamente por personagens silenciosos e esmagados. O sofrimento pode produzir também fabulação, excesso verbal, humor e sonho. A cultura popular nordestina, que Renato Campos estudou, oferece inúmeros exemplos de como dificuldades concretas convivem com poesia, sátira, improvisação e riso. Nesse sentido, Quaderna deixa de parecer negação do sertanejo e passa a revelar outra dimensão de sua capacidade de resistência.

Ariano aparece, então, como escritor que trabalha com uma alegria atravessada pela dor. Renato Campos não utiliza o vocabulário de uma crítica sistemática, mas sua intuição é precisa: a comicidade pode ser forma de conhecimento trágico. O leitor ri e, ao mesmo tempo, percebe que sob as piruetas existem “dores entocadas”. Essa combinação será decisiva para a imagem final do escritor como palhaço capaz de coroar não um indivíduo, mas todo um povo.

O “palhaço coroando um rei” e a grande linhagem do riso

A imagem mais memorável do artigo surge quando Renato Carneiro Campos afirma que Ariano Suassuna, através de ‘A Pedra do Reino’, parece “um palhaço coroando um rei”. A frase concentra a interpretação do romance e da própria função do escritor. O palhaço não aparece em sentido depreciativo. Pertence, segundo Renato Campos, à melhor tradição e é colocado ao lado de Plauto, Gil Vicente, Cervantes, Molière, Rabelais, Fielding, Mark Twain e Charles Chaplin. A enumeração insere Ariano numa genealogia internacional de criadores que utilizaram humor, sátira, exagero e comicidade para interpretar o homem e a sociedade.

Essa linhagem é especialmente significativa porque rompe qualquer tentativa de confinar Suassuna a uma expressão meramente local. O escritor trabalha com matéria sertaneja, mas Renato Campos encontra parentes literários em diferentes épocas e países. O riso estabelece uma ponte entre Taperoá e tradições muito mais amplas da cultura ocidental. A universalidade não exige abandonar o sertão: ela emerge da capacidade de transformar sua matéria em formas reconhecíveis por leitores de outras experiências.

O gesto de coroação também é reinterpretado. Ariano não colocaria a coroa na cabeça de um rei individual, mas de uma população inteira. Essa formulação explica o título “O sertão coroado”. A grandeza atribuída a Quaderna não pertence somente ao personagem. Por meio dele, uma região e sua gente ingressam simbolicamente num espaço de dignidade literária. Aqueles que muitas vezes apareceram na literatura apenas como vítimas da seca, da pobreza ou da violência recebem outra possibilidade de representação: podem também ser reis, palhaços, sonhadores, narradores e construtores de mundos.

Renato Campos descreve a coroação como realizada “à sua maneira”, com risos, peripécias, piruetas, assovios, passes de mágica, sonhos e choro engolido. A enumeração combina espetáculo e sofrimento. A festa nunca é completamente alegre, porque entre os elementos circenses aparece o “choro engolido”. Mais uma vez, a tristeza está escondida dentro do riso. O palhaço é também aquele que transforma dor em performance.

A imagem possui ainda uma dimensão social. Ao coroar simbolicamente uma população, Ariano altera hierarquias tradicionais da representação. O sertanejo deixa de ser figura secundária observada de fora e passa a ocupar o centro de um universo próprio. Seu repertório cultural, sua linguagem e sua imaginação tornam-se matéria digna de grande literatura. Renato Campos, estudioso da cultura popular, reconhece o significado desse gesto. A coroa é literária, mas sua força é também simbólica.

O palhaço que coroa o rei é, portanto, uma metáfora do próprio romancista. Ariano brinca, exagera, cria genealogias improváveis, mistura tradições e produz espetáculo verbal. Contudo, por meio dessa brincadeira, realiza uma operação séria: concede centralidade literária a um mundo regional historicamente situado. O riso torna-se instrumento de elevação. O grotesco pode produzir grandeza. A farsa pode conter verdade.

Dinis Quaderna, “herói coletivo”, e Taperoá como capital espiritual

Depois de apresentar Ariano como o palhaço coroando uma população inteira, Renato Campos chega à sua definição mais importante de Dinis Quaderna: “um herói coletivo”. O personagem não representaria apenas sua individualidade; seria “a síntese, o sumo psicológico, de uma região”. Essas palavras deslocam a análise do plano estritamente literário para uma interpretação cultural. Quaderna concentra desejos, contradições, fantasias, dores e mecanismos de sobrevivência que Renato Campos reconhece como pertencentes a uma experiência regional mais ampla.

A noção de herói coletivo é especialmente interessante quando relacionada aos estudos de Renato Campos sobre tipos populares nordestinos. O sociólogo dedicara-se a compreender cantadores, repentistas e figuras como o “amarelinho” da Zona da Mata, personagem marcado por astúcia e capacidade de adaptação. Quaderna pertence a outro universo e possui construção própria, mas também mobiliza inteligência verbal, invenção e habilidade para reorganizar simbolicamente circunstâncias adversas. O olhar de Renato estava preparado para reconhecer que determinados personagens individuais podem condensar mentalidades e estratégias culturais coletivas.

A afirmação seguinte amplia ainda mais essa interpretação: Taperoá se transforma na “capital espiritual do grande mundo sertanejo”. O pequeno município deixa de ser simples ponto no mapa da Paraíba para converter-se em centro simbólico. A literatura altera a geografia. Uma cidade interiorana pode tornar-se em capital porque concentra, no espaço imaginário do romance, experiências e significados que ultrapassam seus limites físicos. O poder da ficção consiste justamente em produzir esse deslocamento.

A expressão “capital espiritual” também sugere que a centralidade não depende de poder político, econômico ou demográfico. Taperoá torna-se central pela imaginação. É o lugar a partir do qual Ariano reorganiza um mundo. Para Renato Carneiro Campos, esse gesto demonstra que a literatura pode criar suas próprias hierarquias espaciais. Recife, que ele próprio chamara de capital cultural do Nordeste, continua importante. Mas, dentro do universo de ‘A Pedra do Reino’, é Taperoá que assume a condição de centro.

Essa mudança ajuda a explicar a superação definitiva do bairrismo confessado no início do artigo. Renato Campos havia sentido ciúme porque Ariano, formado no ambiente pernambucano, escrevia sobre a Paraíba. Ao final, reconhece que foi justamente essa fidelidade imaginativa a um espaço específico, que permitiu ao escritor realizar algo maior. O sertão paraibano não diminui o alcance da obra. Torna-se sua plataforma de expansão.

Diniz Quaderna e Taperoá formam, assim, duas faces do mesmo processo. O personagem concentra psicologicamente uma região. A cidade concentra espiritualmente um mundo sertanejo. Ambos são elevados pela ficção. Ariano transforma indivíduo e lugar sem apagar suas raízes. Quanto mais particulares se tornam, mais aptos parecem a alcançar significados gerais. Renato Campos percebe nessa operação a passagem decisiva do regional ao universal.

Do sertão para o “mapa geográfico da ficção universal”

O encerramento de “O sertão coroado” representa a rendição completa de Renato Carneiro Campos à força de ‘A Pedra do Reino’. O crítico que começara confessando inveja termina afirmando que, através de Ariano Suassuna, o mundo sertanejo começaria a participar do “mapa geográfico da ficção universal”. A metáfora é poderosa. Existe uma geografia real, formada por cidades, estados e regiões. Mas, existe também uma geografia literária, construída por obras capazes de transformar determinados lugares em referências universais da imaginação.

Ao falar em mapa da ficção universal, Renato Campos não sugere que o sertão somente passaria a existir literariamente com Ariano. A tradição brasileira já possuía representações fundamentais desse espaço, algumas delas citadas no próprio artigo, como ‘Os Sertões’ e ‘Vidas Secas’. O que ele reconhece em ‘A Pedra do Reino’ é outra modalidade de entrada nesse mapa: um sertão recriado pela exuberância, pelo riso, pela farsa, pelo sonho e pela loucura de grandeza, sem que a tristeza desapareça. Ariano acrescenta uma nova cartografia às anteriores.

A conclusão é ainda mais significativa porque Renato Carneiro Campos preserva a possibilidade de discordância. Ele afirma que mesmo aqueles que não concordam com a linha literária de Suassuna não podem deixar de respeitar e aplaudir ‘A Pedra do Reino’. Não exige adesão estética completa. O reconhecimento da realização literária deve sobreviver às diferenças de gosto ou orientação crítica. Essa postura é coerente com todo o percurso do artigo: o próprio Renato começou discordando e tentando encontrar defeitos, mas a releitura obrigou-o a reconhecer a qualidade da obra.

Sua frase final é inequívoca: trata-se de romance realizado por alguém que realmente merece o nome de escritor. Depois de todas as comparações, metáforas e confissões, Renato Campos escolhe encerrar com uma palavra aparentemente simples: escritor. No contexto, porém, ela funciona como título de consagração. Merecer esse nome significa ter construído uma obra capaz de resistir à inveja, ao bairrismo, às objeções sociológicas e às diferenças estéticas. Significa ter transformado matéria regional em criação autônoma.

O Ariano Suassuna visto por Renato Carneiro Campos é, portanto, um escritor que provoca antes de convencer. Sua obra desperta resistência justamente porque realiza com intensidade aquilo que outros escritores também desejariam realizar: dar forma literária a uma região e fazê-la ultrapassar suas fronteiras. A inveja confessada por Renato é, no fundo, medida de admiração. Ele inveja Ariano porque reconhece nele a capacidade de construir um mundo.

Esse mundo não é uma reprodução documental do sertão. É um “castelo sertanejo” assentado na alma do romancista. Possui sol e sombras, gargalhadas e dores escondidas, reis e palhaços, realidade e passes de mágica. Dinis Quaderna pode ser simultaneamente indivíduo extravagante e herói coletivo. Taperoá pode ser pequena cidade e capital espiritual. O sertão pode ser região concreta e território da ficção universal. A força de Ariano reside na convivência dessas dimensões.

A trajetória do próprio artigo reforça essa leitura. Renato Campos começa dentro de uma geografia estreita – Recife contra Paraíba, Zona da Mata contra Sertão – e termina numa geografia universal. Começa pensando em fronteiras e conclui celebrando sua superação. O movimento crítico reproduz, de certo modo, aquilo que atribui ao romance: partir de um lugar determinado e, sem abandoná-lo, alcançar uma dimensão muito maior.

Por isso, ‘O sertão coroado’ permanece como um testemunho especialmente expressivo sobre Ariano Suassuna. Não é elogio protocolar nem homenagem construída depois da consagração. É o registro de um leitor qualificado que luta contra a própria resistência e narra publicamente sua mudança de posição. Sociólogo atento à cultura popular, escritor de prosa clara e pesquisador das realidades nordestinas, Renato Carneiro Campos reconheceu em ‘A Pedra do Reino’ uma criação que não precisava escolher entre região e universalidade, alegria e tristeza, cultura popular e grande literatura.

Ao final, a coroa anunciada no título pertence a muitos. Coroa Quaderna, porque o transforma em herói. Coroa Taperoá, convertida em capital espiritual. Coroa o sertão, elevado à condição de território literário universal; e, inevitavelmente, coroa o próprio Ariano, reconhecido por Renato como alguém que merecia plenamente o nome de escritor. A inveja inicial desaparece porque a literatura se impõe. O que permanece é a admiração de um grande conhecedor do Nordeste diante de outro criador que soube reinventá-lo.

José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário