Um conto de Robin Hood às avessas atravessa nossos dias. Bem longe da ficção histórica que trouxe até nós as aventuras do “heroico” malfeitor da floresta de Nottingham, uma leva de foras da lei constrói, sob nossos olhos, uma versão “moderna” da saga. Desta vez o cenário, lógico, é a nossa “floresta de pedra”.
O avesso da estória clássica é que os protagonistas atuais não protegem a população pobre, vendem proteção; não “roubam dos ricos para dar aos pobres”, extorquem, usurpam, arrematam a fórceps para concentrar riquezas e ostentar publicamente; não combatem o tiranismo dos reis, surrupiam, sob pesadas ameaças ou aliciamento notadamente suspeitos, os governos legalmente constituídos.
A “floresta” que os abriga, territórios dentro dos recônditos das periferias urbanas, não serve apenas como proteção diante das presumíveis represálias: são fortalezas, cujas paredes-escudos são os corpos frágeis e desprotegidos da população civil. Eles não combatem o poder, eles são o poder em paralelo. Sua tática é a captura de reféns. Sob seu jugo, comunidades inteiras são profanadas.
A população, o poder público, a religião, a família são reféns. O poder constituído, ao que sugerem as operações policiais, também. Há indícios, podemos dizer até escandalosos, da infiltração faccional nos serviços públicos. Aqueles postos, há indícios de que também se chega pelo voto direto. As forças de segurança, por seu turno, empenham contradições. O grosso de suas fileiras corre o risco de ser seduzida pelas “forças” contrárias, onde se ganha muito mais. Portanto, se por um lado, nada sobrou do romantismo altruísta da lenda; por outro, a força que deveria ser leal à lei é extremamente cooptável. Em suma, em nossa realidade nada há de se contar de heróico ou de edificante.
Mas pensando bem, esse tal “poder paralelo” é um apanágio da lógica dos nossos tempos, onde valem mais a iniciativa e o enriquecimento, por qualquer meio, que o espírito público. Ou haverá alguém para me contradizer e provar que o campo político é marcado integralmente pela abnegação?
Ironicamente, o narco substitui, a seu modo truculento, o líder comunitário. Ele é a versão grotesca e utilitária dessa liderança: quanto mais miserável a comunidade se mantiver, mais poder ele detém e mais formas de se ocultar encontra. Afinal, a comunidade lhe serve apenas como um escudo vivo. Suas ações são marcadas pelo embuste, pela traição e por um combate falacioso aos poderes constituídos. É a antítese ao poder centralizado e egoísta. Uma vez descentralizado e igualmente explorador, busca impor poder, arranjar meios de vida e instruir uma economia paralela.
O habitat desses “avessos” — as favelas, guetos e malocas — é o lado deliberadamente esquecido da cidade. É o território onde a negligência histórica empurra a população preta e pobre para as margens, transformando-a em objeto de discursos políticos, mas nunca em seu objetivo final. Ali, onde a autoestima não encontra terreno para germinar, o povo é vítima preferencial de um sistema de justiça seletiva e, historicamente, da truculência policial.
São esses os locais onde a dignidade humana é cotidianamente traída. Locais onde a favelização foi consentida como última forma de prover moradias. Faltou e falta político comprometido e honesto. Faltou e faltam políticas de urbanização com tudo que se tem de direito. Só não falta, hoje, o contra poder, a horda Robin Hood às avessas, os paridos dos arrabaldes, que ameaça, toma terreno, coopta e compromete mandatos.
por Edson de França, pessoense, jornalista, cronista e poeta.






