Mundo em Copa

​Janelas do Entre-Copa # 04

​Para Edson de França*, a Copa é uma iguaria. Não uma dessas que se consome entre a pompa, o fausto e a fauna restrita dos grandes salões, mas sim no meio do mercado popular, por entre o vozerio, o comentário exaltado, os suores, a gula dos bons de garfo e os olhares vazios da miséria. Entre a degustação vagarosa e o deglutir apressado, o cronista abre janelas para entrever o que está no preciso instante e além do jogo.

​#1 Hein?

O comercial de TV é anestésico? Não sei, caríssimo! Só sei que ele lida com regiões do cérebro que nem o “patriotismo mais idiotizado”, por si só, consegue atingir. Ou, melhorando a fala: o ufanismo idiota é construído por uma espécie de “propaganda de apelo profundo”. Oxente, por essa construção textual esdrúxula, a propaganda de TV é um cachorro correndo atrás do rabo. O rabo perseguindo o cachorro.

​#2 Marketing x ânimo

Enquanto a seleção joga um futebol burocrático e sem brilho, os comerciais de TV, os patrocinadores e os influenciadores contratados tentam vender a ideia de que “o gigante acordou” ou que “o hexa vem aí”. Por aqui por baixo, longe do cenário principal, vai-se aos bares, gasta-se, esgoela-se, abusa-se do visual verde periquito para, ao final, conferir de que notas se fazem um brasileiro nato.

​#3 Ela nasceu americanizada

Tenho chamado a Copa de “americanizada” e, particularmente, nada vejo de errado nisso. México e Canadá, as outras sedes, são coadjuvantes que jamais chegarão a ser consideradas nem como “auxílio luxuoso” nessa organização, já que são vistas como colônias bem periféricas pelo americano médio. Pela vontade do homem cenoura, aqueles territórios já teriam sido anexados ao império .

​#4 Pronto pra balada

A imprensa mundial repercutiu, com certo grau de chacota, a mala de relógios que o “craque das multidões iludidas” levou à Copa. 21 milhões em 9 roscofes com pedigree, variados e chamativos, é típico de quem está pronto pra uma balada na famosa PH (Priscilla’s House). De preferência, passando longe do esforço e do suor das arenas. Nem na condição de incentivador master da galera.

​#5 Sucessão

O Pelé reinou pela vida como um ícone controverso. Há quem cobre, em sua biografia, uma posição antirracista, assim como há quem questione seu proceder no campo familiar. Em vida, passou por cima de tudo isso. Até a ameaça Maradona foi devidamente aniquilada pela “biografia impecável” em termos de consumo de ilícitos. Com as configurações do sistema devidamente atualizadas, “rei morto, rei posto”, avistam-se movimentações pela escolha de um novo rei. Aguarde-se as movimentações nas peças do tabuleiro.

​#6 Decreto real

Na despedida do futebol, ele clamou pelas crianças do Brasil. O país riu. Alguns consideraram ridículas as palavras. Na real, a infância continua sendo roubada no Brasil. O rei também falou que a África, nossa mama, iria crescer no futebol, quem sabe ter uma nação campeã do mundo. Não sei como essas palavras foram recebidas na época. O que sei é que o jogo é jogado e as predições não se fazem do dia para a noite, obedecem a ciclos bem mais complexos que só os reis intuem.

​#Derradeiras abaixo

O selecionado nacional concluiu, na última sexta-feira (19), a segunda etapa de sua saga rumo ao esperado Hexa. 3 x 0 contra o Haiti, gols de Mateus Cunha. O que segue intacto é a desconfiança, entre os próximos deste colunista, sobre as fases futures e as rezas dos fanáticos pela ressurreição do Salvador da pátria de relógios, digo, de chuteiras.

por Edson de França*, pessoense, jornalista, cronista, poeta e, em tempos de Copa, um analista da cultura do futebol.